sábado, 25 de dezembro de 2010

A ESTÓRIA DAS TRUFAS

Curioso como esses períodos de férias, nos quais eu fico em casa sem maiores ocupações, me fazem recordar de coisas antigas e casos do passado.

Essa estória que contarei refere-se a uma namorada que eu tive.
Eu perguntei a ela se podia falar do acontecimento aqui e ela deixou...

Ela é uma boa menina, em todos os sentidos; calma, compreensiva, carinhosa.
Todavia, ela possuía uma forte característica (na verdade, eu acho que ainda possui) que nos fazia ter constantes conflitos: o desejo que ela tinha de me obrigar a fazer sempre o que ela queria.

Quando eu queria fazer o que ela queria que eu fizesse, tudo bem.
O problema é que quase tudo que ela queria que eu fizesse, eu não queria fazer.
E quando eu utilizava os meus melhores argumentos para fazê-la desistir, derrubando todos os seus sofismas, ela falava chorosa: "Mas é para o seu bem."

E lá ia eu, arrependido, fazer o que ela desejava.

Ora, uma das coisas que ela mais me forçava a fazer, com grande e quase insuportável insistência, era comer.
Ela me obrigava a comer o tempo todo, inclusive quando eu não tinha fome.
Quando eu perguntava o porquê dela querer que eu me alimentasse toda hora, ela falava: "É porque você é magrinho."

Bem, eu realmente era bem magro na época.
Ela justificava dizendo que, quando me abraçava, tinha a impressão de que estar abraçando um menino e não um adulto.
E isso, segundo ela, não a fazia sentir-se confortável, pelo fato de já ser mais velha que eu.

E então, toda vez que vinha aqui em casa, ela me trazia 3 trufas, porque, na cabeça dela, trufa era muito calórico e me faria engordar.

Mas eu odeio trufa!
E ela sabia disso.
Eu já tinha dito isso a ela mil vezes.

Mas isso não importava.
Eu tinha que fazer o que ela queria.
O que valia não era a minha opinião, e sim o fato de que trufa engordava, que ela queria que eu comesse e que isso "era para o meu bem."

No começo do namoro, quando a gente faz tudo para agradar, eu até comia.
Mas depois de vários meses, eu não aguentava mais.
Eu já estava tendo pesadelo com as trufas.

Assim sendo, não querendo constrangê-la, eu deliberei um plano: eu comeria 1 trufa na frente dela e jogaria 2 no lixo quando ela fosse embora.
Era um bom plano.

Claro que eu acabava não jogando fora, para não desperdiçar comida.
Eu as guardava na minha mochila.

Eu fazia assim: quando ela me dava as 3 trufas, eu comia 1 e guardava as outras 2, dizendo que as comeria à noite.
E ela falava triunfante e feliz: "Isso mesmo, comer antes de dormir engorda mais!"

O problema é que de 2 em 2 trufas que ela me trazia e eu guardava na mochila, eu já tinha umas 30 trufas e não sabia o que fazer com elas.
Ademais, eu corria o risco de, algum dia, ela ver aquele monte de trufas juntas e descobrir que eu estava enganando ela.

Me recordo que chegou a época da Páscoa e, voltando um dia da faculdade, à noite, eu tive uma fantástica idéia: eu daria as 30 trufas para os mendigos do bairro.
E assim o fiz.

Andando pelas ruas, no caminho de volta para casa, eu dava 2 trufas para cada um que encontrasse.
Muitos deles nunca haviam visto ou comido aquilo antes.
Quando eu as dava, eles me perguntavam: "O que é isso?"
Eu dizia que era trufa e eles adoraram!

Nos dias posteriores, sempre que eu passava, eles falavam:
"- Irmão, cadê as trufas? A gente nunca tinha comido aquilo! É gostoso! Quando puder traga mais!"

E dessa forma, eu fiquei famoso entre eles: o irmão das trufas.

Pronto, o plano era perfeito.
Toda vez que ela me trouxesse as 3 trufas, 1 era minha e as outras 2 dos mendigos.
Eu evitava comê-las e ainda fazia caridade.

O problema é que as coisas comigo sempre acabam escapando do controle: minha mãe ficou sabendo.
E como toda sogra parece que acaba gostando mais da nora do que do próprio filho, na primeira oportunidade, minha mãe a chamou e disse:
"- Olha só, eu tenho que te dizer uma coisa. Você está trazendo as trufas para Bruno, mas quem está comendo elas são os mendigos na rua."
"- Como assim???", ela perguntou surpresa.
"- É isso mesmo, eu vi ele fazendo isso", concluiu minha mãe.

Quem tem uma mãe dessa, não precisa de mais nada.

Como seria de esperar, ela me chamou para conversar revoltadíssima.

O diálogo foi o seguinte:
Ela: "- Que estória é essa que você está dando as trufas que eu te dou para os mendigos?"
Eu: "- Como assim?"
Ela: "- É isso mesmo. Eu fiquei sabendo."
Eu: "- ..."
Ela: "Fale logo!"
Eu: "- Mas quem te contou?"
Ela: "- Sua mãe."
Eu: "- Minha mãe??? Mas rapaz, que absurdo...!"
Ela: "- Isso é coisa que você faça? As trufas caras que eu compro pra você com tanto carinho."

Com essa frase, sem perceber, ela me deu brecha para argumentar e sair do aperto:
Eu: "- Ah, mas você não me dá as trufas porque gosta de mim. Você me dá pra eu engordar. É interesse."
Ela: "- É, bem eu estranhei o fato de você não estar engordando mesmo..."
Eu: "- Tá vendo???"
Ela: "- Mas é para o seu bem!"
Eu: "- Sempre isso de ser para o meu bem! Você sabe que eu não gosto de comer muito e que eu odeio trufa. Já te disse isso milhares de vezes!"
Ela: "- Mas trufa é calórico e engorda."
Eu: "- E quem te disse que eu quero engordar?"
Ela: "- Mas é para o seu bem!"
Eu: "- Afff..."

Ela: "- Eu já te disse o motivo."
Eu: "- Ok, então eu acho melhor você namorar um lutador de sumô."
Ela: "- Mas você está muito magrinho!"
Eu: "- Se você não gosta de magrinho, tem quem goste."

E o diálogo continuou por mais alguns minutos, sem chegarmos a nenhuma solução.

Eu não sou psicólogo, mas fiz uma análise desse fato e cheguei à seguinte conclusão.
Em verdade, ela tinha um conflito: um transtorno alimentar.
Ela queria comer, mas não comia com medo de engordar, porque havia sido gordinha na adolescência.
Dessa forma, ela fazia uma transferência psicológica para mim: como ela não podia comer, senão engordaria, mas eu podia comer, porque era magro, ela satisfazia toda a vontade dela de comer em mim, em um mecanismo de transferência.

Assim, eu a aconselhei a ir ao psicólogo falar para sobre isso, se abrir e desabafar:
"- Ir ao psicólogo? Você acha que eu sou maluca?", ela me perguntou.
"- Não, não acho. Mas vai acabar ficando se não for", conclui.

Ela foi até um psicólogo e ele chegou a mesma conclusão que eu havia chegado.
Eu não precisei ser um gênio para descobrir isso; foi apenas um pouco de conhecimento da alma humana.

Depois disso, eu fiquei até com pena dela, e passei a comer as 3 trufas que ela trazia.
Eu só acho que os meus amigos mendigos não gostaram nada da forma como as coisas acabaram...

Bruno Gomes
25/12/2010

terça-feira, 30 de novembro de 2010

ROUPA SOCIAL

Devo confessar que nunca gostei de vestir roupa social.
Nada contra ela, muito pelo contrário; apenas acho que não faz o meu estilo.

Mas é claro que podem me chamar para qualquer festa que não farei ninguém passar vergonha.
Naturalmente, eu me visto com relativa correção.

Na verdade, considero-me uma pessoa que, em relação à vestimenta, pode ser chamada de contemporânea: me visto de acordo com a demanda da época em que vivo.
Mas aquela blusa de manga longa engomada, cheia de botões a me sufocar, aquele sapatinho de "velho"...

Não consigo me sentir confortável dentro daquilo.
Todavia, é forçoso admitir que, quando você vai chegando a idade adulta, é necessário se ter pelo menos um conjunto mais social no seu guarda-roupa.

Afinal de contas, quando se é mais novo, os lugares para onde se é convidado são por demais informais: festinhas de aniversário de amigos, a escola; depois vêm os shoppings, cinemas; logo após isso os shows, viagens e todas essas coisas.

Mas a partir de determinada idade os amigos e amigas começam a se formar, a se casar, os eventos vão se tornando mais chiques e requintados, demandando que você tenha uma roupa apropriada e correspondente a esses lugares.

Sabendo disso, resolvi comprar, faz uns cinco anos, uma blusa social creme horrível (mas que no dia eu achei lindíssima), uma calça social azulada e um sapato social marrom.
Não sei se o conjunto geral combinou, mas até hoje ninguém reclamou.

Mas aí eu ganhei um novo e colossal problema: as fotos dos eventos.
Pelo fato de possuir apenas esse conjunto social, nas fotos de casamentos e formaturas de todos os meus amigos, em anos distintos, você sempre me vê com a MESMA roupa.

E isso depois de um tempo, como seria de se esperar, começa a ser percebido e, o que é pior, comentado.

É constrangedor o fato das pessoas te convidarem para festas e já saberem previamente com que roupa você irá.
Algo do tipo: "O Bruno vai? Ah, tenho certeza que ele chegará lá com a famosa blusa creme, calça azul e sapato marrom!"

E o pior que as fotos comprovam o infeliz prognóstico.

Entretanto, o que me fez escrever esse texto foi um acontecimento curioso nesta semana.
Indo à formatura de uma grande amiga, a mesma me recebeu com um sorriso sarcástico, daqueles de canto de boca.
A experiência humana, no trato e convivência com várias pessoas, com diversas personalidades, te dá o toque psicológico para perceber tais coisas.

E eu me surpreendi com essa reação irônica, pois apesar dela certamente está muito feliz com a sua colação de grau, eu a tinha visto bastante triste recentemente, em uma conversa pessoal, por causa da morte inesperada do seu avô, sepultado alguns dias antes.

Percebendo essa atitude, após a abraçar, eu perguntei:
"Qual o motivo desse sorriso menina?", questionei.
"Você quer mesmo saber?", respondeu ela.
"Sim, é claro que eu quero", eu disse.
"Eu estou rindo pelo simples fato de você está vestindo na minha formatura a mesma roupa que você vestiu no enterro do meu avô há quatro dias atrás", concluiu.

Bruno Gomes
29/11/2010

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

NEM QUENTE, NEM FRIO

Eu conheço as tuas obras
Não são quentes, nem frias: são mornas
Em cima do muro, sem definição

Sem pagar o valioso preço de ser diferente
Sem testemunho, sem sacrifício
Sem arrostar conseqüências, acomodada

Morno, indiferente, quase morto
Mumificado, empalhado, paralisado
Sem lágrimas, sem cicatrizes, descrucificado

Nem quente, nem frio: lamentavelmente morno

Bruno Gomes
25/11/2010

Inspirado em Apocalipse 3:15

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

BRAHMS
























As estruturas terrenas se abalam e se movem
Na sua subida gloriosa para as estrelas da imensidão
Sete movimentos como sete orações que assaz comovem
Ungidas e profundas por justo luto no Réquiem Alemão

Vozes retumbantes e variadas, inumeráveis e harmoniosas
Em uma ode à Divindade qual grito por doce consolação
Vindo de corais luminosos que voam alto quais alvas asas
Através de ventos musicais santificados por superior unção

Bruno Gomes
15/11/2010

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O SACERDOTE E O POLÍTICO

Um sacerdote católico, muito amado e venerado pela população, celebrava as bodas de prata do seu ministério em uma pacata aldeia do interior. A igreja sede, devidamente decorada para aquela ocasião especial, estava lotada de fiéis, devido à caridosa influência do religioso.

Naquela noite a solenidade deveria ser presidida pelo governador proeminente da região. Todavia, apesar do agendamento ter sido feito com meses de antecedência, o famoso político não se apresentou ao templo no horário previamente estabelecido. O seu atraso era constrangedor e todos já comentavam e se impacientavam.

Em respeito as centenas de pessoas que se aglomeravam ansiosas no recinto, o sacerdote resolveu iniciar a solenidade. E na apresentação das suas memórias ele narrou:
"Recordo-me do primeiro dia em que cheguei a essa cidade. Fui muito bem acolhido. Pessoas generosas, muito amigas e gentis deram-me as boas vindas, enchendo-me o coração de alegria e confiança para a tarefa a ser desempenhada."

E após breve pausa, continuou:
"
Eu ainda me recordo da primeira confissão. Tratava-se de um rapaz jovem e idealista, filho de rica família da região, que me confessara o seu hábito de furtar. Ele havia furtado os seus pais, os seus avós, o seu patrão, entre outras pessoas próximas. Ele segredou-me também que era um hábil mentiroso, visto que conseguia mascarar as suas torpezas morais, deixando sempre nas pessoas que o viam uma imagem que não correspondia à realidade.

Acostumei-me ao afeto desse povo carinhoso..."

...etc e terminou o seu discurso.

Nesse ínterim, apesar do avançado da hora, chega a conhecida personalidade política ao lado da esposa. Ele adentrou o local sorridente, acenando para todos os presentes. Subiu apressado na tribuna, saudou o sacerdote e, após ajeitar o paletó, começou o seu discurso dizendo:
"Eu recordo-me do dia em que o nosso querido reverendo chegou a nossa cidade. Ainda guardo na lembrança o imenso privilégio de ter sido a primeira pessoa que se confessou com ele."

Bruno Gomes.
28/09/2010

Baseado em uma estória do seminário "Conflitos Existenciais" pelo orador Divaldo Franco.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O HOMEM QUE TINHA MEDO DA MORTE

Havia um senhor de 75 anos que tinha um comportamento um tanto curioso e estranho.
Toda vez que alguém de sua convivência próxima e de idade semelhante a dele morria, ele era tomado por um grande temor pela morte que, segundo ele em sua mente, se aproximava inexorável para buscá-lo.

Reflexionava ele da seguinte forma...
Quando um filho morre antes dos pais ou quando os netos partem antes dos avós, nós somos tomados por um compreensível sentimento de "injustiça" e pesar.
Afinal de contas, no ciclo normal da natureza, os pais devem ir antes dos filhos e os avós antes dos netos.

Mas no seu caso em especial, quando morria um irmão de 78 anos ou um grande amigo de 72, ele era acometido de imenso receio, pois isso significava que o seu nome estava subindo na lista da Sra. Morte e que a possibilidade dele ser o próximo era inevitável.

Tão amiúde se tornara essa sua preocupação, inclusive compartilhada com os amigos, que ele já era conhecido como "o homem que tinha medo da morte", título desse texto.

Certo dia, após cumprir todos os seus afazeres diários, ele se aprontou para dormir.
E ao cair no sono ele sonhou com uma tia falecida já há muito tempo e da qual ele nem mais se lembrava.
Nesse sonho ela aparecia no seu quarto e o dizia: "Diga para a minha filha (prima dele) que, em relação à morte, você irá à frente dela", e desapareceu.

Ele acordou desesperado.
Nunca tinha tido um sonho parecido com aquele.
Em verdade, ele nem mesmo chegou a conviver com essa tia, pois a mesma havia morrido quando ele ainda era muito jovem.
A reconhecia apenas por fotos no álbum da família.

Como algo do tipo poderia ter acontecido?
Aquele sonho havia sido real ou era apenas um fruto da sua imaginação?

Dessa forma, totalmente envolvido pelo acontecimento insólito e até então inédito, ele não conseguiu mais dormir naquela noite, preocupado com a notícia que a tia havia trazido do outro mundo.

Ao amanhecer, veio-lhe a súbita lembrança de que deveria passar o recado para a sua prima, afinal esse fora o motivo da mãe dela ter vindo do Além ao seu encontro.

Mas como faria isso?
Como a sua prima receberia tal notícia: a de que, em relação à morte, ele iria à frente dela?

Pôs-se a meditar e, após longas reflexões, foi até a casa dela.

Lá chegando, após conversarem alegremente, ele tomou uma postura mais séria, fechou o semblante e disse para a prima:

"- Eu tenho uma notícia muito grave para te dar", iniciou.
"- Uma notícia grave?", perguntou a prima.
"- Sim, muito grave", disse.
"- Por favor, diga-me então! Que notícia é essa?"
, questionou curiosa.
"- Ontem à noite eu tive um sonho com a sua falecida mãe", revelou ele.
"- Com a mamãe? Mas que maravilha! Eu sempre quis sonhar com ela! Tenho tantas saudades! Mas o que isso tem de tão grave?", perguntou.
"- Na verdade o problema não é o sonho em si, mas a mensagem que ela veio trazer-me e pediu para passar para você", respondeu algo soturno.
"- Mas então me diga logo! Que notícia grave é essa que ela pediu para você me trazer?", interrogou ansiosa.
"- Bem... Infelizmente, a notícia que ela me trouxe é que, em relação à morte, eu irei a sua frente", disse tentando ser o mais objetivo possível.

"- Mas que horror! Como a mamãe pôde ter trazido uma notícia tão terrível? Eu não acredito nisso!", disse ela, assustada.
"- Pois é... Mas é a verdade", admitiu ele.
"- Mas não se preocupe com isso! Você está saudável, é um homem forte. Ainda tem muitos anos de vida pela frente! Ademais, eu tenho 80 anos, ou seja, sou cinco anos mais velha que você. O mais provável é que eu vá a sua frente", argumentou ela, tentando consolá-lo.
"- Como assim? Eu não estou nem um pouco preocupado com isso. Acho que você não entendeu bem a notícia", completou ele, surpreso.
"- Mas... Não é você que tem sempre medo de morrer e está constantemente envolvido em sismares sobre o dia da sua morte? A mamãe disse que você irá morrer antes de mim!"
"- Não, não", insistiu.
"- Como não? Foi você mesmo quem disse que o recado dela foi esse!", continuou, confusa
"- Exatamente. Mas entenda bem. A sua mãe disse que, em relação à morte, eu iria a sua frente", complementou ele.

"- Ok, tudo bem. Então me diga: como você interpreta isso?", finalizou algo irritada.
"- Da seguinte forma: em relação à morte eu irei realmente a sua frente. Pois estarei no seu enterro, a sua frente, carregando o seu caixão!"

Bruno Gomes.
01/07/2010

Baseado em uma estória do seminário "Conflitos Existenciais" pelo orador Divaldo Franco.

domingo, 6 de junho de 2010

PALESTRA DE FLAVINHO

Uma das palestras que eu nunca falto no Paulo e Estêvão é a do meu amigo Flávio Santos.

Eu sinto que é uma palestra que realmente agrega algo, afinal de contas eu sempre saio dela com a nítida sensação de ter aprendido alguma coisa extra.
Dessa forma, me esforço para todos os primeiros sábados do mês estar lá para assisti-lo.

Além dele ser um grande amigo, ele foi o meu primeiro evangelizador na JEPE (Juventude Espírita Paulo e Estêvão) junto ao Ricardo Dib, quando eu resolvi adentrar ao universo do Espiritismo.

Para falar a verdade, uma coisa que pouca gente sabe é que o Flavinho já falou até no meu noivado (quando eu era noivo).
Já participamos de inúmeros trabalhos juntos na seara espírita; então, de certa forma, o rapaz já faz parte do meu rol de amigos queridos.

Ontem, sábado, dia 05/06, assisti mais uma de suas palestras.
E aconteceu algo interessante que eu já vinha percebendo há muito tempo nas palestras dele: a enorme quantidade de nomes de grandes personalidades que ele fala no momento doutrinário.

Estudiosos, pesquisadores, cientistas, filósofos, grandes personagens de todas as áreas do comportamento humano, em uma seqüência impressionante.

A minha querida amiga Edina, que também estava na palestra, me perguntou ao final:
"- Mas Bruninho, que palestra maravilhosa, né?"

"- Nossa, nem fala! Foi muito legal", respondi.

"- Eu me emocionei em algumas partes", complementou ela.

Então eu a perguntei uma coisa que a deixou algo confusa:
"- Mas você viu a quantidade enorme de nomes que ele falou na palestra? Só faltou falar o nosso!"

Para vocês que estão lendo esse texto e não estavam lá, eu vou tentar transcrever os diferentes nomes citados (pelo menos os que eu recordo por conhecê-los, pois foram inumeráveis).
Vou ter até o cuidado de colocá-los em ordem alfabética:

Amélia Rodrigues
Calvino
Camile Flammarion
Carl Gustav Jung
Chico Xavier
Constantino
Danton
Decartes
Diderot
Emmanuel
Engels
Erich Fromm
Francisco de Assis
Galileu Galilei
Giordano Bruno
Irmã Dulce
Isaac Newton
Joana D'arc
Joanna de Ângelis
Joseph Ignace Guillotin
Kant
Karl Marx
Kate Fox
Lutero
Manoel Philomeno de Miranda
Maomé
Marat
Margareth Fox
Moisés
Natanael
Orígenes
Rainha Maria Antonieta
Robespierre
Rousseau
São João da Cruz
Sigmund Freud
Simão bar Jonas
Sr. Fortier
Sra. Plainemaison
Tereza D'ávila
Torquemada
Victor Hugo
Voltaire
William Crookes

Isso sem contar os que já esperávamos, como Jesus e Allan Kardec, como é óbvio.

Ou seja, foram 46 nomes e eu tenho certeza que estou esquecendo de mais alguns.
Na próxima vez eu vou com um caderno e uma caneta para anotar todos.

Isso deixa qualquer um doido e eu já falei isso a ele.
Só faltou ele falar os famosos "alhures" e "algures", velhos conhecidos nossos.

"- Mas você viu a quantidade enorme de nomes que ele falou na palestra, Edi? Só faltou falar o nosso!", perguntei para Edina.

"- Ah, Bruninho! Só você pra me fazer rir, viu? Nosso nome!"

"É claro! Bruno e Edina, grandes apóstolos do Espiritismo baiano! Ele tem que falar alguma coisa de mim, afinal eu trabalho tanto!", completei.

"Ah, Bruninho! Só o Pai você, viu? (risos)"


Bruno Gomes.
06/06/2010

domingo, 30 de maio de 2010

MALHAR OU NÃO MALHAR: EIS A QUESTÃO!

Começo esse post com uma dúvida meio shakespereana no título, parafraseando Hamlet, o príncipe da Dinamarca.

Nunca pensei que malhar em uma academia trouxesse tantos conflitos de ordem do relacionamento entre amigos, família, etc.

Desde que iniciei os meus estudos para o concurso da ESAEX (Escola de Administração de Exército), tive que começar a me exercitar pelo fato de, além da prova teórica, eu ser submetido a um teste físico chamado EAF (exame de aptidão física).

O EAF não é nem lá dos mais complicados, mas como eu não teria disciplina para efetuar diariamente todo o treinamento sozinho, preferi me matricular em uma academia a fim de ter um horário específico e totalmente dedicado a isso.

Ou seja, não é nem por uma questão de vaidade, mas sim para fins profissionais.
Certamente você se sente mais bem disposto, a auto-estima aumenta, entre outras coisas.
Mas a meta principal é o concurso.

Todavia, tenho percebido as conseqüências disso.

O primeiro problema é quando os seus amigos começam a achar que você está tomando bomba, ao verem você começar a ganhar um corpinho.
Não entendo o motivo dessa relação, afinal de contas com dedicação e boa vontade você pode ficar naturalmente mais forte, sem necessariamente recorrer a essas alternativas.
Há exercícios específicos para tal, onde ocorre uma hipertrofia muscular, apesar de não querer que ela seja exagerada no meu caso pessoal por achar feio.

Dessa maneira, começa-se a escutar piadas as mais desagradáveis possíveis de pessoas que em verdade, em uma análise psicológica mais cuidadosa, adorariam está com um corpinho igual ao seu, mas que não se esforçam para tal.

O segundo problema é em casa.
Em casa as pessoas começam a achar que pelo simples fato de você estar malhando você é o novo Arnold Schwarzenegger, pronto para carregar toneladas com apenas o dedo mindinho.
Assim sendo, quando a mãe varre a casa você é chamado para levantar o sofá, a mesa, a cama...

E o grande problema é que você não pode nem negar, pois quando isso ocorre, já falam:
"- E você tá malhando pra quê?"

...

"- Para passar na prova física da ESAEX, o concurso que farei", respondo.

Mas às vezes é difícil entenderem isso.

Essa semana eu estava concentrado estudando uma matéria.
Quando de repente minha mãe chega ao quarto, dizendo:
"- Você coloca o garrafão de água no filtro para mim, por favor?"

Como eu estava focado na leitura do capítulo, respondi quase inconscientemente:
"- Claro, pode deixar lá que depois que acabar aqui eu coloco."

Ao que ouvi como resposta:
"- Mas não pode colocar agora? Em casa que tem homem, mulher não pega peso!"

Nesse momento, como desperto de um longo e pesado letargo, eu pensei em uma resposta imediata.
Poderia não tê-la dado, mas não resisti.

Como eu não estava com Jesus no momento, ela saiu, em alto e bom som:
"- E em casa que tem mulher, homem não lava prato! E eu lavo os pratos todos os dias!"

Um silêncio que parecia infinito se abateu sobre o quarto, antes que qualquer um falasse alguma coisa.
Eu sabia que tinha falado besteira e que haveria conseqüências.

Quem me conhece sabe que esse não é o meu perfil e que sou um feminista nato, defensor dos direitos das mulheres.
Mas foi incontrolável!

Passado o susto, ouvi uma resposta pesada e rancorosa que ecoa nos meus ouvidos até agora:
"- Machista!"

Agora, quem já viu um machista que lava os pratos sujos do almoço e da janta e ainda varre a casa todos os dias?

Mas isso não foi nada.
O pior estava prestes a acontecer.

Na JEPE (Juventude Espírita Paulo e Estêvão), uma evangelizanda muito fofa do 1º ciclo chamada Bia, que não lembrava do meu nome, perguntou para as outras colegas sobre mim:
"- Qual o nome daquele rapaz, branquinho, de cabelos pretos e curtos...?"

"- Hum, quem? Não sabemos", responderam.

"- Aquele que fica com a Juliana no 3º ciclo!"

"- Não lembramos de ninguém com essas características", insistiram.

E como as meninas não conseguiam responder, ela arrematou:
"- Aquele que parece um personal-trainer!"

Ao que as meninas concluíram:
"- Será que é o Bruninho???"

Pois é.
Aparentemente eu estou cercado por todos os lados!

Neste mesmo dia, no 3º ciclo, a querida evangelizanda Ana Carla parou a atividade para dizer que eu era compacto.

Mas, bem... isso já é relacionado a outra coisa e assunto para um outro texto.
Por hoje, chega de apelidos!

Bruno Gomes.
29/05/2010

domingo, 23 de maio de 2010

CARTA PARA MIM

Eu tenho algumas poucas coisas para te dizer
Espero que não seja tarde demais para as falar
Talvez elas me façam amadurecer e crescer
Mesmo que nunca venham pretensiosamente a te tocar

Vou logo dizendo que não sou poeta, nem orador, muito menos trovador
Apenas agrada-me brincar com as palavras quando elas aparecem no ar
Não pense igualmente que sou mestre, guru ou professor
Sou apenas alguém igual a ti com algumas palavras para passar

E te digo então que as lágrimas que vertem quentes
Dos seus olhos inflamados e que te queimam a face
Não são desprovidas de profundo significado e de razão ausente
Nem papel velho que se descarte, queime ou amasse

São elas avisos da vida para que tomes novo rumo
E sacudas a poeira que permanece acinzentando o seu corpo
Estímulos para que renasças como flor em meio ao lodo
E acertes aquilo que em sua existência permanece feio e torto

Um dia você olhará para trás e dirá
Que é feliz por ter encarado as lágrimas de maneira diferente
E por ter continuado a caminhar e a amar se alegrará
Quando tudo te estimulava a perecer e a murchar na mente

Mas quantas palavras bonitas a aparecer na boca de um ignorante!
Como se eu fosse bom o suficiente para alguém orientar e aconselhar
Percebo então que não são minhas ou para você que elas vão adiante
Mas é Deus me dizendo para que as use urgentemente para me endireitar

Bruno Gomes.
24/05/2010

domingo, 9 de maio de 2010

BATE PAPO COM JESUS



- Olá, bom dia Bruno!
- Oi! Caramba, você se atrasou hoje, hein?
- Me desculpe. É que são muitas pessoas para atender. Você entende, não é?
- É verdade. Ser o Governador da Terra não deve ser lá tarefa das mais fáceis.
- Pois é, não é realmente. Mas mesmo depois de 2.000 anos de trabalho eu não penso em me aposentar!
- Graças a Deus! Já pensou? Se você se aposentasse, o que seria de nós?!? Se com você por aqui as coisas já são como são, imagine sem você. Ademais, não pense que eu esqueci o que você falou em Mateus 20-28: que estaria sempre conosco "até a consumação dos séculos".
- Não se preocupe, afinal essa é a minha intenção.
- Ainda bem. Ademais, você nem ouviu o que eu tenho pra te contar.
- É mesmo. Vamos lá, me diga. Qual o motivo de você ter me ligado assim e marcado aqui na praça de última hora?
- Bem, é que ando meio triste. Às vezes eu penso se sou realmente digno de todo o seu amor...
- Como assim? Por que você está dizendo isso?
- Porque eu não consigo vivenciar o que você nos legou em toda a sua plenitude.
- Por quê? Você acha muito difícil viver de acordo com o que eu lhe ensinei?
- Afff, nem te conto... Perdoar os inimigos, dar a outra face quando uma for batida, esquecer as ofensas 70 vezes 7 vezes, retribuir o mal com o bem, dar dois mil passos quando alguém quiser dar mil, ter uma fé que transporta uma montanha, entrar pela porta estreita, orar e vigiar, multiplicar os talentos recebidos, arrancar o olho quando ele for motivo de escândalo, entre outras coisas mais. Puxa, cansa só de pensar em tudo!
- Mas recorde-se que não foi fácil nem para mim. Eu fui perseguido, caluniado, incompreendido... E ainda por cima terminei crucificado, lembra?
- Ah, mas você é O cara! Eu não sou o cara...
- (risos)
- É sério pô! Você é você, eu sou eu. Pra eu viver o nível de amor que você viveu, só daqui a, sei lá... milhares e milhares de reencarnações!
- Mas o simples fato de você se sentir tocado pela mensagem, quando antes você nem a dava atenção, já é um grande passo.
- Pode ser. Mas fico triste, pois eu sei que poderia amar mais, perdoar mais, ajudar mais, ser mais útil, ser mais caridoso... e mais um monte de coisas que você ensinou.
- Não seja tão exigente com você. A perfeição não virá de uma hora para a outra.
- ...
- Há quanto tempo você se tornou espírita e conheceu melhor a minha doutrina?
- Hum... Me tornei espírita aos 21 anos.
- Pois bem. Não faz nem 10 anos que você descobriu os meus ensinamentos e já quer que um par de asas brancas e luminosas nasça em suas costas!
- Ah, mas os seus discípulos foram chamados e imediatamente atenderam. E se tornaram grandes apóstolos do bem!
- Ai, ai... Você que pensa. Você não sabe o trabalhão que eles me deram. E eu nem preciso te lembrar que um me traiu e outro me negou, certo?
- Mas o Estêvão e o Paulo? Estêvão quando descobriu o evangelho de Levi na Casa do Caminho com o Pedro e o Paulo quando encontrou você no Caminho de Damasco se tornaram grandes missionários! A mudança foi imediata!
- Mas recorde-se que Estevão já era a bondade em pessoa desde antes. Paulo já era disciplinado desde a sua época como doutor da Lei.
- Mas eu estou sentado com você num banco de uma praça, coisa que você não fez com nenhum deles, e ainda assim eu não consigo. Além disso, há outros exemplos na história de pessoas que receberam o seu chamado e...
- Calma. Perdoe-me a interrupção. Mas agora chegou a minha hora de dizer: eles são eles, você é você!
- Ah, assim não vale! Você roubou a minha frase!
- Mas é verdade! Cada um com as suas necessidades, cada um ao seu tempo. Com isso não digo que você seja acomodado. Se esforce pela sua melhoria moral e pelo seu crescimento espiritual! Mas não faça da vivência da minha doutrina um tormento íntimo, perdendo a espontaneidade no seu comportamento e mantendo uma conduta extremamente policiada. Há atitudes suas cultivadas há várias existências. Não será uma questão de dias, semanas e meses que fará com que você as supere.
- Eu me esforço tanto. Quem ver o meu exterior transbordando serenidade e sorrisos nem desconfia das lutas contra as imperfeições que travo interiormente.
- E eu conheço todas essa suas batalhas. E esse é o bom combate. Descobrir os defeitos, reconhecer eles e lutar por vencê-los, paulatinamente e sem culpas. Dia a dia, se esforçando por ser hoje melhor do que ontem e amanhã melhor do que hoje.
- Mas esse é o problema! A falta de linearidade no progresso. Tem dias que eu sou melhor do que o dia anterior. Mas um dia depois eu faço algo e já sou pior do que a semana toda!
- Como você mesmo diz: só o Pai! (risos)
- Mas que situação essa minha, né?
- Essa é a situação de milhares de discípulos meus que aderiram sinceramente a Boa Nova. A vontade é tão honesta, que os pequenos insucessos geram insatisfação. Eu compreendo. Mas ame: esse é o melhor conselho.
- Você fala como se isso fosse a coisa mais fácil do mundo, né?
- Mas eu nunca disse que seria fácil. Eu disse que valeria a pena.
- Eu tento, tento. Mas...
- Lembre-se do meu Calvário. Antes de chegar ao cume do Gólgota eu cai três vezes, pois o peso do madeiro era imenso, fora os ferimentos que eu tinha pelo corpo desde o Getsêmani e o cansaço físico. Mas me reergui nas três oportunidades, demonstrando que o problema não é tropeçar e sim não levantar-se e permanecer no chão. Viu? Tudo na minha vida pode te dar um ensinamento. Ademais, eu contei ainda com a ajuda valiosa de Verônica e do Cirineu.
- É, eu sei...
- Não há outra alternativa a não ser seguir em frente. Errar aqui, acertar ali, até que o ato positivo se torne tão constante e natural que se transforme em um automatismo benéfico. Você já sabe o caminho. A rota é clara. Você deu o primeiro passo. Agora é só não se deixar desestimular pelos malogros e sim aprender com eles. Seja o sal da terra: esteja no mundo para influenciar positivamente o mundo!
- É o que tenho me esforçado por fazer... Espero que dê tudo certo.

Primmmmm!

- Ups, desculpa Bruno.
- O que foi isso?
- É o meu celular.
- Puxa, você não podia ter colocado ele no silencioso enquanto conversávamos?
- Mas não posso. Esqueceu que eu sou o Governador da Terra? É uma chamada de outra pessoa para conversar, em outro banco de praça, em outro lugar do mundo.
- Ah, tá. Posso saber de onde é essa chamada?
- Claro que sim. É de um rapaz da Nova Zelândia. E nem te conto qual é o problema dele.
- Qual é?
- Não quer adivinhar?
- Ah, eu não sou o Cristo pô!
- (risos)
- Fala aí.
- O problema dele é o mesmo que o seu.
- Fala sério!?!
- Pois é. Mais alguém que não consegue vivenciar os meus ensinamentos na sua totalidade e se angustia por isso.
- Então tá, vai lá que eu não quero te atrasar. Converse com ele direitinho, pois eu sei o que ele está sentindo nesse momento, ok?
- Pode deixar. Promete que vai deixar essa tristeza para trás e pensar em tudo que te disse?
- Claro, vou sim. Tenho que aproveitar a nossa conversa, afinal não é a qualquer momento que converso assim com você!
- Muito bom! Vou indo.
- Espera! Antes de você ir posso te dizer uma coisa?
- Claro! O que foi?
- Obrigado por tudo. Obrigado pelo seu amor e por sua presença constante em minha vida. Não sei o que seria de mim sem você. Obrigado por ter nos deixado tantos ensinamentos que nos confortam e consolam sem cessar. Perdoe os meus muitos erros e me desculpe por apenas pedir coisas sempre, quando na verdade eu deveria agradecer pelas bênçãos inumeráveis que você me oferece diariamente. Perdoe a minha imaturidade, a minha infantilidade e as minhas teimosias. Obrigado pela minha família, pelos meus amigos e tudo o mais.
- Ah, não precisa agradecer!
- É sério. Eu amo tanto você. Queria apenas que você soubesse disso. Em verdade, em verdade te digo: você é muito importante na minha vida!
- Ah, agora foi você que roubou a minha frase!
- Foi mal! (risos)
- Valeu Brunão! Fui.

Bruno Gomes.
09/05/2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010

AS MINHAS "VÁRIAS" NAMORADAS

Estranho como lembramos de determinadas coisas que aconteceram há muito tempo, que aparentemente já deveriam ter caído no abismo do esquecimento e que inesperadamente reaparecem ricas na nossa mente.

Há muitos anos eu tive uma namorada que gostava muito de ir ao salão de beleza e passar longas horas fazendo tratamentos os mais diversos, de cabelo, de pele, unhas, massagens, etc.
E gastava muito dinheiro com isso, diga-se de passagem...

Certo dia, ao deixá-la em casa à noite, ela me disse:
"- Bruno, amanhã você terá uma namorada totalmente diferente. Tenho certeza que você nem irá me reconhecer!"

E como um homem que acredita em tudo o que a mulher fala, eu concordei, sorri e nos despedimos.

No dia seguinte marcamos para assistir um filme no cinema e estabelecemos que nos encontraríamos na praça de alimentação do Shopping Iguatemi às 18:00hs.
Cheguei às 17:45hs para esperá-la e surpreendi-me pelo fato dela não chegar no horário.

Uma das suas características mais admiráveis era a pontualidade praticamente britânica, o que me fazia ter grande disciplina para chegar sempre antes do horário combinado.
Dessa forma, ao dar 18:30hs, preocupado, resolvi ligar para o celular dela, temendo que algo tivesse acontecido ao longo do caminho.

Nós tivemos o seguinte diálogo:

"- Menina, onde você está?!"
"- Eu estou aqui."
"- Aqui onde? Na praça de alimentação onde combinamos?"
"- Exatamente. Já cheguei faz meia hora."
"- Como assim? Eu não estou te vendo. Em que local você se encontra?"
"- Estou aqui, de costas, há apenas alguns metros de você."

E eu, inquieto, levantei-me da cadeira e circunvagava o olhar ansioso pelo recinto, mas não a via.

Então conclui, dando um toque de humor:
"- Não é possível. Você está brincando comigo, não é?"
"- Claro que não. Que namorado é esse que não reconhece a própria namorada no meio da multidão?"

De repente, para a minha surpresa, uma moça bonita de cabelos longos e sedosos se aproxima de mim e vira-se subitamente.
Eu quase caí da cadeira: era ela!
A minha namorada que tinha os cabelos na altura dos ombros, estava com eles agora no meio das costas!

Eu estava maravilhado!
Há algumas horas atrás eu tinha deixado uma namorada em casa e agora eu estava saindo com uma outra namorada!
Que coisa curiosa!
Eu tinha duas namoradas e nem sabia disso!

E essa era naturalmente uma poligamia ética.
Afinal, não era culpa minha.
Era a minha própria namorada que, através de uma metamorfose diária, me fazia ter várias namoradas em uma mesma semana.

Assim, na segunda eu tinha uma namorada de cabelos curtos, na terça uma de cabelos longos, na quarta uma morena, na quinta uma loira, na sexta uma de cabelos cacheados, no sábado uma de cabelos lisos, no domingo uma com franja e assim sucessivamente.

Que beleza!
Eu estava em uma posição que muitos homens julgam privilegiada (erroneamente)!
Eu tinha diversas namoradas e a minha namorada verdadeira nem se importava com isso!

Então, como um namorado gentil, eu elogiei o seu cabelo novo, conversamos rapidamente e saí de mãos dadas com ela pelo shopping, orgulhoso da minha "nova" companheira.

Todavia, e para a minha amarga infelicidade, ao final do filme lembrei-me de algo que um colega tinha me dito, em certa oportunidade, a respeito da possível origem desses cabelos que são vendidos e que as pessoas compram para colocar nas suas próprias cabeças.

E assustado com a lembrança súbita, perguntei a ela, receoso:
"- É verdade o que dizem por aí que esses cabelos que são comprados em salões de beleza são de pessoas que já morreram e que a família corta pra vender?"

Não obtive resposta.
Apenas um olhar fulminante e uma afirmação, tácita:
"- Me leve para casa. Agora!"

Bruno Gomes.
21/04/2009

segunda-feira, 12 de abril de 2010

UMA EXPERIÊNCIA PROTESTANTE

Nada melhor do que passar por uma experiência nova para se abrir mentalmente a reflexões as mais diversas. Afinal, na boa filosofia, a partir do momento em que julgamos saber todas as coisas, fechamo-nos automaticamente ao aprendizado de conhecimentos novos e enriquecedores, enjaulados egocentricamente na pretensão e pseudo-sabedoria de possuir a verdade absoluta.

E, como espírita, sempre me intrigaram os cultos evangélicos das igrejas protestantes modernas. Sendo atraído pela história das religiões desde muito novo, em leituras e estudos variados, fascinava-me a postura nobre e corajosa de Lutero ao cravar na Igreja do Castelo de Wittenberg as suas 95 teses no ano de 1517, dando início assim, na Alemanha, a Reforma Protestante, rompendo com os exageros e desmandos clericais da Igreja Romana da sua época, baseados na venda de indulgências, entre outros.

Entretanto, não obstante a curiosidade saudável e o fato de possuir um número significativo de amigos evangélicos que comigo convivem e travam contato diário, seja na faculdade ou no trabalho, eu nunca havia tido a oportunidade de verificar in loco um dos seus cultos e cerimoniais. E hoje, no dia 11 de abril de 2010, eu tive essa inédita e feliz experiência.

A intermediária para o acontecimento foi uma boa amiga de Brasília, a Isabelle, que, estando pela primeira vez na cidade de Salvador junto ao coral de jovens do qual faz parte, veio para a posse do novo pastor da Igreja Batista da Pituba, localizada na Alameda Flamboyants no Caminho das Árvores. E com a gentileza peculiar que lhe é característica, a mesma me estendeu um convite para, além de nos encontrarmos pessoalmente pela primeira vez, participar das cerimônias pertinentes a posse do referido pastor.

Assim sendo, não sabendo ao certo o que aconteceria, cheguei antes do horário aprazado para ambientar-me adequadamente ao local, sentei-me respeitosamente em uma das cadeiras do arrumado e bem cuidado recinto e esperei. E após encontrar a Isabelle e nos cumprimentarmos, deu-se início as atividades matinais do domingo. Como seria de se esperar, inúmeras coisas chamaram-me a atenção e sobre algumas delas tentarei tecer alguns comentários breves e respeitosos.

A primeira delas, e que me surpreendeu profundamente por ser algo que, confesso, não percebo amiudemente na nossa esfera de ação, é a preocupação exteriorizada por todos na Igreja em bem receber aqueles que estão visitando-a pela primeira vez. Pessoas educadas, gentis e sorridentes estão em todos os lugares, sempre bem dispostas a darem informações e a equacionarem as dúvidas dos neófitos, os fazendo se sentir confortáveis e a vontade no novo ambiente. E posso realmente dizer que vivenciei esse aspecto na pele, pois o momento mais curioso, e que bem serve para exemplificar esse fato, foi quando, durante o culto, o simpático e jovem pastor recém-empossado, Matheus Guerra, se dirigiu ao auditório dizendo: “Aqueles que estão aqui pela primeira vez, por favor, se levantem.”

Naturalmente, eu fui tomado por um imediato conflito e pensei rapidamente: “Creio que não deverei me levantar. Caso eles me perguntem algo ou peçam para que me dirija para frente do salão, será certamente uma situação constrangedora!” E congelei-me na cadeira por alguns segundos, sem ousar me movimentar. Mas, imediatamente, veio a minha mente a figura da Isabelle e o pensamento de que ficaria chato para ela ver o amigo, carinhosamente convidado por ela, não levantar-se.

Então, respirei fundo e, estimulado por algumas outras poucas pessoas que também se ergueram, levantei-me da cadeira. Logo após isso, o referido pastor deu-nos as boas-vindas, dizendo da alegria em nos receber e abrindo as portas da Igreja para que voltássemos no momento que julgássemos oportuno. Mas quando eu achava que já estava acabado, algo novo e ainda mais inusitado aconteceu. Após dirigir-nos a palavra, ele solicitou que os freqüentadores costumeiros da Igreja cumprimentassem-nos. E, de repente, eu estava rodeado de pessoas solícitas e carismáticas, que apertavam-me as mãos e abraçavam-me de forma calorosa.

Algo a se apontar igualmente, é a preocupação da Igreja em bem capacitar aqueles que são responsáveis pelas suas atividades principais, tais como os pastores, ministros, etc. Todos os responsáveis pela palavra neste dia específico da minha visita possuíam um profundo conhecimento das letras bíblicas, o que os facultava falar com grande conhecimento de causa e coerência. Ao lado desse atributo, eles eram exímios oradores, eloqüentes e hábeis na arte do verbo, os permitindo pregar com grande desenvoltura, correção e segurança.

Ao lado desses, um outro acontecimento que levou-me a reflexão foi o fato de como as religiões descendentes do Cristianismo Primitivo carregam entre si, como é óbvio, grande semelhança em seu bojo doutrinário, apesar das distinções de interpretação compreensíveis e de usarem denominações distintas para nomear-se. Conteúdos positivos como a fé inabalável em Deus, a excelência da mensagem de Jesus como o mais perfeito código ético-moral jamais criado para a felicidade do homem, fluíam de todos os lugares. E lá eu estava e ouvia nos cânticos entoados em uníssono pelos presentes, nas letras das músicas e no discurso dos pastores e ministros, teses e ensinamentos que, apesar de não ser protestante, não me eram novos e que não se diferenciavam, na sua essência cristã principal, daqueles aos quais eu estava acostumado e me dedicava a meditação e estudos cuidadosos no Centro Espírita.

Afastei-me mentalmente do culto e da movimentação do recinto por um momento e, envolvido em profundos cismares, tentando concatenar as idéias, questionei-me: Será que as pequenas diferenças de interpretações devem causar esse abismo profundo que muitas vezes existe entre pessoas de diferentes denominações religiosas, quando em verdade, e segundo Jesus, toda a Lei e os profetas estão contidos nesses 2 mandamentos: “Amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo”? (Mateus, 22:38)

E naquele momento de surpresa, enquanto ouvia dos ungidos discursos de veneração e de certeza da figura de Jesus como sendo a influência maior das nossas vidas, igualmente não pude furtar-me a recordação da pergunta de Allan Kardec aos Espíritos em O Livro dos Espíritos: 625. Qual é o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem para lhe servir de guia e modelo? Ao que eles responderam com surpreendente objetividade: “- Vede Jesus”.

E os mesmos acrescentariam em O Evangelho Segundo o Espiritismo: “Espíritas: amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo. Todas as verdades se encontram no Cristianismo; os erros que nele se enraizaram são de origem humana. (...) Irmãos! Nada perece! Jesus Cristo é o vencedor do mal; sede os vencedores da impiedade!”

Despedi-me da amiga ao final. E retornando para casa, questionava-me se Deus, em Sua infinita sabedoria, permitia que a doutrina do Seu Filho tivesse sido distribuída em diversas denominações doutrinárias cristãs, não para criar cisões ortodoxas dolorosas e desnecessárias, mas para que ela pudesse encaixar-se e ser assimilada por todos os tipos de níveis da consciência humana; para que ninguém, no Seu imenso rebanho, ficasse destituído da mensagem evangélica libertadora de vidas, sob a justificativa de interpretá-la de maneira diferente. Tal como um hábil professor de matemática sabe moldar e adaptar as informações passadas aos diferentes níveis de idade dos seus alunos, com o objetivo de ser melhor compreendido por cada um deles através dos seus cálculos, apesar da matemática continuar a mesma em seu conteúdo principal.

E ao retirar-me do recinto, um senhor jovial acercou-se e me perguntou: “Você já é evangélico?” Eu sorri e o respondi que era espírita, explicando-o que havia visitado a sua igreja a convite de uma amiga querida. Ao que ele redargüiu curioso: “E o Espiritismo é uma religião?” Com naturalidade, eu respondi: “A minha resposta deveria ser mais complexa do que essa, mas, simplificando, sim, é uma religião embasada nos princípios evangélicos de Jesus.” Ele aquiesceu, respeitoso e simpático, e confabulamos amistosamente, trocando mais algumas poucas palavras em conversa animada.

Ao final, apesar de continuar tão espírita quanto no momento em que adentrei na aconchegante e bela Igreja Batista da Pituba, aprouve a Deus mostrar-me algo novo nesse dia. Ao verificar o arrebatamento da fé e o fervor, o amor e o devotamento a Jesus naquele ambiente até então desconhecido por mim, veio-me a certeza de que Deus, na Sua onipresença, derrama a Sua influência divina em todos os lugares onde reinam a sinceridade da fé, a boa-vontade dos aprendizes do Evangelho e o desejo verdadeiro de tornar-se uma pessoa melhor, em amando a Ele sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo, pois, independente e malgrado as diferentes interpretações, disso “depende toda a Lei e os profetas.” (Mateus, 22:38)

Bruno Gomes.
11/04/2010

quinta-feira, 8 de abril de 2010

BEETHOVEN II



As notas e melodias abundantes, antes ricas e vívidas
Desaparecem dolorosamente ante a inesperada surdez inditosa
Mas agora as capto do cosmos em espírito, vibrantes, vivas
Sutis e silenciosas pela mente em inspiração majestosa

E surdo, em Viena, escondo-me da sociedade, do mundo
Erguendo-se da minha solidão composições ainda mais profundas
Trazendo beleza e luminosidade em meio a preconceito imundo
Partindo saudosas sob corais geniais para a imortalidade fecunda

Bruno Gomes.
07/04/2010

terça-feira, 6 de abril de 2010

HILDEGARD VON BINGEN



Santa Hildegarda, escritos e visões sob inspiração divina
Monja beneditina, luz em antigo mosteiro alemão
Estrela na escuridão medieval, ponte com o Além, peregrina
Ecoam seus cantos gregorianos nos velhos conventos em aluvião

Religiosa, médium, poetisa, escritora, compositora
As legendárias línguas de fogo jazem sobre a sua fronte
Espanto e admiração da alta Igreja Romana inquiridora
Pelos conhecimentos e milagres que lhe jorram de superior fonte

Bruno Gomes.
06/04/2010

sábado, 3 de abril de 2010

HÄNDEL



O Seu inesquecível messianato é musicado em sinfonia
Cantadas são Suas amáveis palavras daqueles doces dias
Das páginas evangélicas para as partituras em ordenada cantoria
Das praias de Cafarnaum para o tablado do palco em O Messias

A sonoridade suave do Tiberíades, o piscoso mar da Galiléia
E a musicalidade divina e eterna do Sermão da Montanha
Captadas em profundidade pela orquestra aprumada e milimétrica
Da humilde manjedoura ao doloroso Calvário em beleza tamanha!

Bruno Gomes.
31/03/2010

MOZART



Eloqüente e profunda Missa solene aos mortos
Àqueles em direção ao Hades, pelo Aqueronte, à terra de ninguém
No barco de Caronte, para o Tártaro, com o crocitar dos corvos
Ou aos Campos Elísios com o canto dos anjos em Réquiem

Tristeza e júbilo vindo calmos de instrumentos e de vozes
Ode de luto e esperança às saudosas almas dos ancestrais
Hino pela imortalidade do ser, envolvente como em doce hipnose
Entoado pelos que vivem, em luminosas partituras universais

Bruno Gomes
25/03/2010

BEETHOVEN



Ressoa tremendamente como os passos de um gigante
Poderosa, move terras e montanhas entre êxtase e agonia
Os céus se abrem e os deuses contemplam-te por instante
Silenciam, ajoelham-se e abençoam-te, ó 9ª Sinfonia

Torre imensa de luz divina ergue-se na direção das estrelas
Santo Graal musical, Alfa e Ômega da arte
Oceano arrebatador de sons e vozes, tocantes, certeiras
Da surdez agiganta-te em perfeição, mágica e melodias escarlates

Bruno Gomes.
12/03/2010

CHOPIN



Melodias espirituais flutuam no ar
Dedos ágeis em tons suaves a hipnotizar
Harmonias sensíveis pacificadoras das paixões
A calmaria divina materializa-se em doces canções

Deus desce à Terra em forma de música para encantar
Toma de suas delicadas mãos para compor, para tocar
Para falar aos corações terrenos em notas angelicais
O piano vive em suaves Noturnos sob sentimentos celestiais

Bruno Gomes
25/02/2010

sábado, 6 de fevereiro de 2010

O DESERTO E A BORBOLETA



O deserto anelado dos iniciados e santos
O silêncio sobre o ondulado mar de areias infinitas
Solidão que faz ouvir dos ventos os ecos e cantos
Que das dunas alvas dança e se agita

O vozerio do mundo inquieto emudece-se por instantes
Que desdobra-se paulatinamente por longos dias e noites
Visão contínua do solo branco, maçante
Cujos claros grãos beijam-me em doce açoite

Perco-me e flutuo leve em suas crestadas areias
Mergulho nas ignotas profundezas do seu ser
Sob o calor das dunas, levita e passeia
Em luz, a alvorada, o anoitecer

Uma borboleta, então, me aparece neste ambiente
Suas asas contrastam com o território de cor homogênea
Seu colorido não secará nas areias de calor ardente
Nem se apagará a sua figura luminosa e argêntea

Vai-te daqui, borboleta
Meu jardim seca árido, sem néctar para te alimentar
Deixa-me apenas a lembrança do colorido das suas asas
E parte ao vento sul que guiar-te-á para o mar

Mas eu sei quão suave são seus braços
E como anelaria por sobre os Dela adormecer
Mas trovões e tempestades, ventanias e brados
Poderiam advir desse efêmero amanhecer

Mas para quê esse semblante soturno?
Vim trazer-te água fresca para o teu jardim florescer
Meu colorido te servirá de constante insumo
E de sede você jamais irá perecer

Bruno Gomes.
04/02/2010