segunda-feira, 12 de abril de 2010

UMA EXPERIÊNCIA PROTESTANTE

Nada melhor do que passar por uma experiência nova para se abrir mentalmente a reflexões as mais diversas. Afinal, na boa filosofia, a partir do momento em que julgamos saber todas as coisas, fechamo-nos automaticamente ao aprendizado de conhecimentos novos e enriquecedores, enjaulados egocentricamente na pretensão e pseudo-sabedoria de possuir a verdade absoluta.

E, como espírita, sempre me intrigaram os cultos evangélicos das igrejas protestantes modernas. Sendo atraído pela história das religiões desde muito novo, em leituras e estudos variados, fascinava-me a postura nobre e corajosa de Lutero ao cravar na Igreja do Castelo de Wittenberg as suas 95 teses no ano de 1517, dando início assim, na Alemanha, a Reforma Protestante, rompendo com os exageros e desmandos clericais da Igreja Romana da sua época, baseados na venda de indulgências, entre outros.

Entretanto, não obstante a curiosidade saudável e o fato de possuir um número significativo de amigos evangélicos que comigo convivem e travam contato diário, seja na faculdade ou no trabalho, eu nunca havia tido a oportunidade de verificar in loco um dos seus cultos e cerimoniais. E hoje, no dia 11 de abril de 2010, eu tive essa inédita e feliz experiência.

A intermediária para o acontecimento foi uma boa amiga de Brasília, a Isabelle, que, estando pela primeira vez na cidade de Salvador junto ao coral de jovens do qual faz parte, veio para a posse do novo pastor da Igreja Batista da Pituba, localizada na Alameda Flamboyants no Caminho das Árvores. E com a gentileza peculiar que lhe é característica, a mesma me estendeu um convite para, além de nos encontrarmos pessoalmente pela primeira vez, participar das cerimônias pertinentes a posse do referido pastor.

Assim sendo, não sabendo ao certo o que aconteceria, cheguei antes do horário aprazado para ambientar-me adequadamente ao local, sentei-me respeitosamente em uma das cadeiras do arrumado e bem cuidado recinto e esperei. E após encontrar a Isabelle e nos cumprimentarmos, deu-se início as atividades matinais do domingo. Como seria de se esperar, inúmeras coisas chamaram-me a atenção e sobre algumas delas tentarei tecer alguns comentários breves e respeitosos.

A primeira delas, e que me surpreendeu profundamente por ser algo que, confesso, não percebo amiudemente na nossa esfera de ação, é a preocupação exteriorizada por todos na Igreja em bem receber aqueles que estão visitando-a pela primeira vez. Pessoas educadas, gentis e sorridentes estão em todos os lugares, sempre bem dispostas a darem informações e a equacionarem as dúvidas dos neófitos, os fazendo se sentir confortáveis e a vontade no novo ambiente. E posso realmente dizer que vivenciei esse aspecto na pele, pois o momento mais curioso, e que bem serve para exemplificar esse fato, foi quando, durante o culto, o simpático e jovem pastor recém-empossado, Matheus Guerra, se dirigiu ao auditório dizendo: “Aqueles que estão aqui pela primeira vez, por favor, se levantem.”

Naturalmente, eu fui tomado por um imediato conflito e pensei rapidamente: “Creio que não deverei me levantar. Caso eles me perguntem algo ou peçam para que me dirija para frente do salão, será certamente uma situação constrangedora!” E congelei-me na cadeira por alguns segundos, sem ousar me movimentar. Mas, imediatamente, veio a minha mente a figura da Isabelle e o pensamento de que ficaria chato para ela ver o amigo, carinhosamente convidado por ela, não levantar-se.

Então, respirei fundo e, estimulado por algumas outras poucas pessoas que também se ergueram, levantei-me da cadeira. Logo após isso, o referido pastor deu-nos as boas-vindas, dizendo da alegria em nos receber e abrindo as portas da Igreja para que voltássemos no momento que julgássemos oportuno. Mas quando eu achava que já estava acabado, algo novo e ainda mais inusitado aconteceu. Após dirigir-nos a palavra, ele solicitou que os freqüentadores costumeiros da Igreja cumprimentassem-nos. E, de repente, eu estava rodeado de pessoas solícitas e carismáticas, que apertavam-me as mãos e abraçavam-me de forma calorosa.

Algo a se apontar igualmente, é a preocupação da Igreja em bem capacitar aqueles que são responsáveis pelas suas atividades principais, tais como os pastores, ministros, etc. Todos os responsáveis pela palavra neste dia específico da minha visita possuíam um profundo conhecimento das letras bíblicas, o que os facultava falar com grande conhecimento de causa e coerência. Ao lado desse atributo, eles eram exímios oradores, eloqüentes e hábeis na arte do verbo, os permitindo pregar com grande desenvoltura, correção e segurança.

Ao lado desses, um outro acontecimento que levou-me a reflexão foi o fato de como as religiões descendentes do Cristianismo Primitivo carregam entre si, como é óbvio, grande semelhança em seu bojo doutrinário, apesar das distinções de interpretação compreensíveis e de usarem denominações distintas para nomear-se. Conteúdos positivos como a fé inabalável em Deus, a excelência da mensagem de Jesus como o mais perfeito código ético-moral jamais criado para a felicidade do homem, fluíam de todos os lugares. E lá eu estava e ouvia nos cânticos entoados em uníssono pelos presentes, nas letras das músicas e no discurso dos pastores e ministros, teses e ensinamentos que, apesar de não ser protestante, não me eram novos e que não se diferenciavam, na sua essência cristã principal, daqueles aos quais eu estava acostumado e me dedicava a meditação e estudos cuidadosos no Centro Espírita.

Afastei-me mentalmente do culto e da movimentação do recinto por um momento e, envolvido em profundos cismares, tentando concatenar as idéias, questionei-me: Será que as pequenas diferenças de interpretações devem causar esse abismo profundo que muitas vezes existe entre pessoas de diferentes denominações religiosas, quando em verdade, e segundo Jesus, toda a Lei e os profetas estão contidos nesses 2 mandamentos: “Amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo”? (Mateus, 22:38)

E naquele momento de surpresa, enquanto ouvia dos ungidos discursos de veneração e de certeza da figura de Jesus como sendo a influência maior das nossas vidas, igualmente não pude furtar-me a recordação da pergunta de Allan Kardec aos Espíritos em O Livro dos Espíritos: 625. Qual é o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem para lhe servir de guia e modelo? Ao que eles responderam com surpreendente objetividade: “- Vede Jesus”.

E os mesmos acrescentariam em O Evangelho Segundo o Espiritismo: “Espíritas: amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo. Todas as verdades se encontram no Cristianismo; os erros que nele se enraizaram são de origem humana. (...) Irmãos! Nada perece! Jesus Cristo é o vencedor do mal; sede os vencedores da impiedade!”

Despedi-me da amiga ao final. E retornando para casa, questionava-me se Deus, em Sua infinita sabedoria, permitia que a doutrina do Seu Filho tivesse sido distribuída em diversas denominações doutrinárias cristãs, não para criar cisões ortodoxas dolorosas e desnecessárias, mas para que ela pudesse encaixar-se e ser assimilada por todos os tipos de níveis da consciência humana; para que ninguém, no Seu imenso rebanho, ficasse destituído da mensagem evangélica libertadora de vidas, sob a justificativa de interpretá-la de maneira diferente. Tal como um hábil professor de matemática sabe moldar e adaptar as informações passadas aos diferentes níveis de idade dos seus alunos, com o objetivo de ser melhor compreendido por cada um deles através dos seus cálculos, apesar da matemática continuar a mesma em seu conteúdo principal.

E ao retirar-me do recinto, um senhor jovial acercou-se e me perguntou: “Você já é evangélico?” Eu sorri e o respondi que era espírita, explicando-o que havia visitado a sua igreja a convite de uma amiga querida. Ao que ele redargüiu curioso: “E o Espiritismo é uma religião?” Com naturalidade, eu respondi: “A minha resposta deveria ser mais complexa do que essa, mas, simplificando, sim, é uma religião embasada nos princípios evangélicos de Jesus.” Ele aquiesceu, respeitoso e simpático, e confabulamos amistosamente, trocando mais algumas poucas palavras em conversa animada.

Ao final, apesar de continuar tão espírita quanto no momento em que adentrei na aconchegante e bela Igreja Batista da Pituba, aprouve a Deus mostrar-me algo novo nesse dia. Ao verificar o arrebatamento da fé e o fervor, o amor e o devotamento a Jesus naquele ambiente até então desconhecido por mim, veio-me a certeza de que Deus, na Sua onipresença, derrama a Sua influência divina em todos os lugares onde reinam a sinceridade da fé, a boa-vontade dos aprendizes do Evangelho e o desejo verdadeiro de tornar-se uma pessoa melhor, em amando a Ele sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo, pois, independente e malgrado as diferentes interpretações, disso “depende toda a Lei e os profetas.” (Mateus, 22:38)

Bruno Gomes.
11/04/2010

8 comentários:

Ricardo Dib disse...

Eu sentindo que você está meio inclinado a se converter...

Corrija a data, estamos em 2010.

Abraço.

Bruno Gomes disse...

rsrs
Eu achava que já era convertido Dibão!

Beleza, valeu por chamar a atenção referente a data!
Vou corrigir.

Abraços!

Pr. Matheus disse...

Caro Bruno,
Foi um grande prazer conhecê-lo. Agradeço as palavras carinhosas à nossa igreja e reitero o convite que que esteja conosco quando possível. A Isabelle é uma amiga muito querida.
Seu texto está muito bom. Parabéns, você escreve muito bem.
Um abraço,
Pr. Matheus Guerra.

Bruno Gomes disse...

Que surpresa Matheus vê-lo aqui no meu blog, apesar de termos sido apresentados rapidamente pela Isabelle!

Eu que agradeço a receptividade e o carinho de vocês.
Foi uma experiência muito agradável e enriquecedora a que tive junto ao pessoal da Igreja Batista da Pituba.

Um forte abraço a todos e até uma próxima oportunidade!

Bruno.

Cristiano Contreiras disse...

Carissimo, conterraneo

ótimo espaço inteligente e de reflexão!

te seguirei, abraço

ISA disse...

Que chic, vc tem um blog! Eu não sabia que vc escrevia, muito menos que escrevia tãooooooo bem. Eu não acharia desperdício vc largar o curso de Adm pra estudar Letras, uahuahuahu.

Gostei muito do seu texto, não poderia concordar mais com oq vc escreveu sobre Mateus 22:38.

De fato essa é mesmo a idéia, que está mencionada também em: Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor (I Coríntios 13:13). Acho que é nosso espírito humano e muitas vezes mesquinho que faz com que construamos essas barreiras, ou esses abismos, mas que esse não é o ideal.

E quanto ao que vc falou sobre a doutrina de Jesus ser distribuída em diversas denominações, eu diria que mantidas as devidas proporções, Jesus afirma ser o caminho, a verdade e a vida[I Timóteo 2: 4-6], o único mediador entre Deus e os homens[João 14:6]. Então, tirando por aí, acho que não teríamos muito pra onde correr.

Mas é isso aí, diferenças a parte, vc tá no caminho certo... beijooo

ISA disse...

Eu não podia deixar de registrar que me apaixonei pelo povo baiano! Êta povo receptivo! De certa forma, me senti em casa! ;D

Bruno Gomes disse...

Obrigado Isa!

Achei engraçado o: "Então, tirando por aí, acho que não teríamos muito pra onde correr."

Legal saber que não dá pra fugir de Jesus! (risos)
Ainda bem, não é verdade?!

Beijos querida e fica com Deus!