quarta-feira, 29 de maio de 2013

O MARTÍRIO DE IGNÁCIO

Ano 98 do calendário cristão. Aquele fora um ano difícil para os adeptos da Boa Nova. Desde o governo do Imperador Nero que o cerco aos cristãos havia recrudescido. Vítimas da calúnia, foram injustamente responsabilizados pelo grande incêndio em Roma no ano de 64. Perseguições contínuas, dores inenarráveis conduziam inúmeros adeptos da doutrina de Jesus ao sacrifício no Circo Máximo. Em todos os lugares se ouviam as sinistras sentenças de ordem:
- Queimem os cristãos!
- Joguem os cristãos às feras!

Entre os inúmeros apóstolos do Cristo que vivenciaram tais eventos, havia um de nome Ignácio. Ignácio de Antioquia. Tendo sido criado na Galiléia, ele e a sua família seguiam, encantados, os passos de um jovem carpinteiro nazareno que realizava inumeráveis milagres naquela região. Compareciam às suas pregações à beira do lago em Cafarnaum e enchiam-se de celestes esperanças através das palavras Dele: "Bem aventurados os que choram, porque serão consolados! Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia! Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus!"

Certo dia, ainda pequenino, Ignácio ouviu da sua mãe: "Vai Ignácio! Vai até Jesus para que Ele imponha as mãos sobre a sua fronte e o abençoe!"
Curioso, Ignácio juntou os seus amigos e aproximou-se do Mestre. Os discípulos, preocupados com a multidão que se adensava para vê-Lo, os afastaram com severidade. Mas Jesus, com a sua infinita bondade e ternura, reprimiu os discípulos e disse: "Deixai vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos céus é para aqueles que se lhes assemelham", e acolheu com alegria o pequeno grupo. 

Muitos anos haviam se passado desde aqueles tempos de júbilo. Jesus já havia sido crucificado em Jerusalém e os seus seguidores estavam dispersos na imensa tarefa de pregação evangélica: Pedro, Mateus, João, Paulo... E entre eles estava agora Ignácio, adulto e bem disposto, levando a palavra do Messias a todos os sofredores. No seu coração, nunca esquecera aquele gesto carinhoso de Jesus olhando nos seus olhos e nos de seus amigos, os colocando no colo e os abençoando. E fortalecido nessa lembrança, dedicou integralmente a sua existência ao filho de Deus. Consolava as viúvas, cuidava dos enfermos, secava as lágrimas dos arrependidos, indicando-lhes um novo caminho, orientava as crianças.

Já em idade avançada, mas robusto na fé que o abrasava, Ignácio permanecia, a pedido de João, o Evangelista, organizando as atividades de pequeno agrupamento cristão em cidade próxima algumas léguas de Roma, levantando o ânimo dos adeptos perseguidos. Sempre os lembrava: "Irmãos! Se o próprio Mestre foi levado ao sacrifício pelo seu amor às criaturas, não devemos nós, meros discípulos imperfeitos, esperar privilégios na luta pela implantação do Reino de Deus na Terra. Dessa forma, permaneçamos fiéis até o fim!"

Foi envolto nessas expectativas que, ao entardecer de certo dia, uma escolta armada a mando de César invadiu o local onde os cristãos, dirigidos por Ignácio, se reuniam para as preces diárias. Ignácio presidia a reunião daquela noite, quando o arrogante soldado interrompeu o seu discurso: "A mando de César, todos os seguidores do falso profeta galileu serão levados ao cárcere, para posterior morte na arena! Retirem todos desse local de sortilégios!"

Ignácio, sereno e sem reagir, acalmou o ânimo dos mais frágeis, elevou o pensamento ao alto e, confiante, entregou-se a Jesus. Havia se preparado para aquele momento durante toda a sua vida. Por vários dias ficaram em uma cela úmida e fétida. Mas Ignácio nunca cessava a palavra de encorajamento e de fé, narrando as inesquecíveis histórias dos mártires do passado. 

Em uma determinada tarde, as celas foram finalmente abertas e, acorrentados uns aos outros por pesadas correntes, eles foram levados para as ruas movimentadas de Roma. Após tanto tempo nos calabouços subterrâneos, o sol incomodava-lhes os olhos. Ignácio, a frente da comitiva, contemplava Roma, a cidade dos Césares, pela primeira vez. Palácios belos, praças compostas de valioso mármore, estátuas de ouro dedicadas aos deuses do panteão romano cintilavam à luz do crepúsculo. Construções enormes talhadas em pedra bruta, baseada em avançada arquitetura, embelezavam aquela cidade que, à época, era o Centro do mundo.

De repente, Ignácio, para a surpresa de todos, começou a sorrir. Mesmo os seus companheiros não entendiam aquela sua atitude inesperada. Um dos guardas pretorianos, vendo semelhante ato, golpeou o venerando apóstolo da caridade na face, dizendo: "Miserável! Marcha para a morte, que encontrará nos postes de fogo, nas caldeiras ferventes ou nos dentes afiados dos leões africanos! E ainda assim você sorri da sua situação e desse magote de miseráveis que o acompanham?"

"Sim, jovem. Sorrio do imenso paradoxo que contemplo diante dos meus olhos!"

Aplicando um novo golpe na face, o soldado redargüiu: "Sois louco, assim como toda essa massa ignorante, seguidora de um carpinteiro medíocre que encontrou a morte vergonhosa na cruz entre dois ladrões!"

Ao que Ignácio sorriu e respondeu: "Enganas-te, jovem soldado. Sorrio sim, ébrio de alegria. Contemplo a sua majestosa cidade com toda a sua glória, riqueza e pompa. Moedas e objetos valiosos movimentam-se pelos lugares mais belos que os meus olhos terrenos jamais poderiam ver. E ao perceber isso, pergunto-me: Se Deus, em sua superior bondade e justiça, deu semelhantes coisas a vocês que são criminosos, assassinos, corruptos e dilaceradores de vidas sem conta... O que Ele não reservará para nós que dedicamos toda uma vida por amor a Ele?!"

O soldado, estupefato, não soube responder tão lúcida elucidação. Mas não havia mais tempo para maiores incursões filosóficas. As portas do Circo Máximo foram abertas para a entrada do simples e humilde grupo dedicado ao Messias. O grandioso estádio estava completamente lotado por pessoas com a consciência anestesiada nas paixões. 

Diante do barulho ensurdecedor, Ignácio olhou com ternura para os seus amigos: mulheres, crianças, jovens rapazes, idosos. Buscando inspiração no Alto, lhes disse: "Eis irmãos, o dia do nosso glorioso testemunho por Jesus, a quem amamos. Nada temam! A morte não é o fim da vida, mas a porta que se abre para um mundo estuante que nos espera logo mais! Lembremos da frase do Cristo, quando Ele nos disse no Sermão da Montanha: Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de Mim. Alegrai-vos e exultai, porque grande será a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós."

Ajoelhados e de olhos fitos no alto, não perceberam eles que Espíritos iluminados desciam de altas esferas de luz, os envolvendo em serenidade e coragem para o último ato de fé. Os leões famintos e outras feras selvagens foram soltas para devorarem os seus corpos frágeis. Mas suave e doce torpor os envolvia, enquanto eram libertados da matéria por mãos claras e alvinitentes. Rostos acolhedores e sorrisos simpáticos os recebiam no mundo espiritual. 

E entre eles, aureolado de luz, com olhos claros como duas estrelas, estava Jesus, exatamente como nas suas pregações à beira do lago na já longínqua Galiléia. De braços abertos recebeu-os a todos e, contemplando Ignácio, falou com indefinível entonação: "Vinde, irmão. Vinde ao Reino que meu Pai preparou para os apóstolos da Nova Fé! Pois ele só é acessível àqueles que possuem o coração puro... puro como o de uma criança."

Bruno Gomes.
29/10/2012

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O ORADOR GAGO

Lamenais foi uma figura célebre em sua época. Exímio orador em Roma, magnetizava as multidões com o seu verbo fácil e eloqüente. Suas palavras encantavam e fluíam quais melodias orquestrais, fazendo com que os seus concorridos discursos fossem momentos de grande enlevo intelectual e emocional. Os firmes argumentos que utilizava nas suas robustas defesas arrebatavam, tornando impossível qualquer réplica.

Todavia, fato curioso: as suas memoráveis palestras nunca eram feitas por ele, mas por alguns dos seus alunos mais experientes. E o motivo é que Lamenais, apesar da sua grande capacidade retórica, era gago. Quando jovem, ainda insistira em subir ao púlpito para falar ao público, estimulado pelos pais. Mas as sílabas travavam, a dicção não acompanhava a rapidez do seu raciocínio, sendo vítima da chacota dos ouvintes.

Tais eventos o causavam penoso constrangimento, qual punhal invisível que lhe fosse cravado dolorosamente no peito, gerando grande tristeza e frustração. Como não lograra êxito na busca da cura através dos médicos e terapias da época, recolheu-se, limitando-se a escrever suas teses, que eram defendidas por outros, não desejando mais expor-se.

Foi nesta época que resolvera fundar uma pequena escola de oradores que em pouco tempo tornou-se famosa, atraindo jovens alunos de toda a região, alguns dos quais tornaram-se conhecidos discípulos seus. Os seus opositores queixavam-se, desejando o fechamento da escola. Afirmavam ser impossível um homem gago formar oradores. Era como, diziam, um velho coxo formar poderosos guerreiros.

E foi sob essas acusações que Lamenais foi chamado a se defender publicamente. Ao contrário das suas longas dissertações, ele enviou por um dos seus orientandos um pequeno bilhete, que ao ser lido pelo jovem, dizia: "Sim, um homem gago pode formar grandes oradores. Pois ele é como a rocha phretah, encontrada nas praias do Mediterrâneo: nada corta, mas afia a lâmina das espadas para cortar."

Bruno Gomes
30/08/2012

* Inspirado na vida de Demóstenes.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

CURVAR-SE

Johann era um homem profundamente dedicado a Deus. Desde a sua juventude sentiu-se atraido à leitura das Velhas Escrituras, sobre a narrativa da saga do sofrido povo "escolhido" por Jeovah, que vencera dois grandes períodos de dolorosa escravidão, na Babilônia, no Egito. Fascinara-se pela sublime energia com a qual Moisés conseguira impor a sua vontade sobre um povo indisciplinado e supersticioso durante 40 anos de peregrinação no deserto em direção à Terra Prometida. De caráter apaixonado e idealista, Johann decidiu-se então por entregar-se totalmente ao estudo das Páginas Sagradas, aprofundando-se na história dos profetas e do povo hebreu.

Esteve absorto por longas noites em bibliotecas inacessíveis ao vulgo, onde tinha largo acesso a livros antigos, papiros esquecidos e valiosos, os quais lia sempre com verdadeiro entusiasmo. Após a sua ordenação, durante décadas dedicou-se ao serviço do Senhor, cumprindo rigorosamente todas as regras e ritos cerimoniais estabelecidos nos mínimos detalhes. Tudo que o homem podia dar a Deus era pouco na sua concepção. Com o passar do tempo, isto o levou a estar constantemente atento à conduta daqueles que, em sua opinião, não tinham a mesma capacidade de raciocínio e a inteligência necessária à análise das ordenações divinas. Dessa forma, quando os surpreendia em alguma atitude menos feliz, recriminava-os com severidade, fazendo-se ouvir por longos minutos sobre a forma como todos deveriam se comportar, irrestritamente de acordo com a sua interpretação da vontade de Deus.

Sentia-se um missionário, com a elevada tarefa de salvar almas. Desse modo, deveria estabelecer normas de conduta rígidas para aqueles que, como ele, desejavam ver a face de Deus um dia. Sendo um profundo conhecedor da doutrina que se filiava, todos que o cercavam deveriam curvar-se as suas opiniões, que não permitia contrariações, provindas do seu verbo fácil e embasado fielmente à teoria que o abrasava. E assim, fez-se respeitado pelo seu vasto conhecimento, muito embora não amado por aqueles sobre os ombros dos quais fazia pesar dolorosamente o suposto "desejo" do Senhor. Admirado pela postura externa de fiel e irrepreensível devoto, tornara-se antipático e arrogante pela maneira autoritária e impiedosa com a qual conduzia os seus pupilos. Onde chegava, a sua presença desagradável de homem invariavelmente crítico e prepotente sempre gerava um mal-estar geral perceptível por todos.

Todavia, com o passar do tempo, Johann começou a sentir-se perturbado. Do alto do púlpito, após realizar suas prédicas costumeiras e repetitivas, via todos os fiéis genuflexos, curvados em atitude oracional. Naturalmente aquilo muito o satisfazia; mas aquele povo, na sua maioria composto de gente simples e pobre da região, saia extasiado após orar juntos de joelhos, sentindo-se profundamente tocados pelas energias espirituais que pairavam no ambiente nesses momentos. Johann observava todos àqueles que o obedeciam sem questioná-lo saírem do templo felizes após terem se curvado humildemente diante do altar, de onde pediam aos céus a força e a resignação indispensáveis para suportarem as suas provas, enquanto ele, não obstante os constantes diálogos com filósofos e doutores, príncipes e pensadores célebres, não sentia essa sutil e íntima comunhão com o Pai Celestial.

Aquelas observações agora, confessava, causavam-lhe um grande impacto. Johann começou a perguntar-se porque nunca se sentia efetivamente pleno. Não entregara toda a sua vida a Deus, com total abdicação de tudo? Não catequizava as pessoas, fazendo-as ver o erro das suas crenças e aceitar a fé conforme a ortodoxia reinante? Nunca permitira abalar-se nas suas convicções firmes e no seu ânimo inquebrantável. Mas, ainda assim, via-se constantemente presa de conflitos, inquietações e ansiedades que procurava diluir com maior dose de disciplina no fiel desempenho da sua tarefa de vigilante servidor de Deus na Terra. Não era ele, portanto, digno que contemplar o Criador? Quem melhor que ele poderia compreender a magnitude divina?

Foi envolvido nessas conjunturas que resolveu visitar o altar do templo a ele confiado desde muitos anos e meditar. Lá chegando, porém, surpreendeu-se com a figura de um mendigo que, curvado sobre o chão empoeirado, orava com fervor. De olhos fitos no alto e de mãos postas, o peregrino da miséria parecia imerso em um oceano de puras e angélicas emoções. A imagem de fé que tinha diante dos olhos era tamanha que Johann sentiu-se diminuir na sua altivez. Do alto da sua autoridade, admitia que nunca se exporia a prostrar-se no solo daquela maneira, diante de todos, para entregar-se a prece. Mas aquele ser que tinha diante de si, aparentemente ignorante, parecia tocado por algo que, agora, reconhecia nunca ter experimentado em sua longa existência.

Ao erguer-se, na sua indigência, o andarilho tinha os olhos brilhantes e um contagiante sorriso no rosto enrugado pelo tempo. Cativado pela ocorrência inusitada, Johann rendeu-se e falou, algo melancólico: "Muitas vezes, em minhas reflexões, me pergunto por que Deus não se dirige a nós, como fazia em tempos passados, conforme lemos nas Sagradas Escrituras. Ninguém hoje em dia vê Deus, quando na antiguidade Ele aparecia às pessoas com tanta freqüência e por diversas maneiras, provando a Sua existência. Por vezes sinto que Ele abandonou os seus filhos."
Ao que o estranho respondeu: "Senhor, permita-me dizer que Deus jamais esqueceu os seus filhos e, ademais, nunca deixou de fazer-se perceptível a todos os homens. O grande problema é que, hoje em dia, e ao contrário do passado, já não existem muitas pessoas capazes de curvar-se o bastante para percebê-Lo."

Bruno Gomes.
26/07/2012

* Inspirado em uma passagem do livro "O Homem e seus Símbolos" de Carl Gustav Jung.

domingo, 10 de junho de 2012

NECESSIDADE DO EXEMPLO

Certa feita, Kasturba, a esposa de Gandhi, resolveu levar a presença do seu marido um velho amigo cuja saúde muito a preocupava. Sendo um senhor de idade avançada e não seguindo os conselhos médicos para diminuir a quantidade de sal na sua alimentação, a senhora Gandhi decidiu levá-lo para aconselhamento junto ao seu esposo, confiante que estava na energia contagiante e na palavra sábia do líder, que a todos sempre tocava.

Logo após uma das suas longas meditações, Gandhi recebeu a parceira acompanhada do amigo que, ensimesmado, comparecia àquele encontro.
Quebrando o silêncio, a senhora Gandhi falou: "Eis aqui o amigo teimoso do qual te falei. Tendo a saúde abalada por causa da grande quantidade de sal que ingere, ele se nega a passar por uma reeducação alimentar. Assim, resolvi trazê-lo aqui para que você, com a autoridade dos seus exemplos, o persuada a tal cometimento."
Todavia, para grande surpresa da sua esposa, Gandhi estranhamente empalideceu. Silenciou por alguns momentos e, frustrando todas as expectativas, respondeu timidamente: "Por favor, voltem daqui há um mês."

Algo contrariada, Kasturba retirou-se e esperou um mês para retornar com o amigo.
Ao reencontrar-se com o esposo, passados os 30 dias, a postura dele em relação a necessidade do enfermo foi totalmente inversa.
Gandhi falava, entusiasmado: "Senhor! Para o seu próprio bem, diminua a quantidade de sal na sua alimentação, a fim de que você possa adquirir maior qualidade de vida, sendo útil aos seus semelhantes!" 
E, por longo tempo, dialogou eloqüentemente com o homem, logrando finalmente convencê-lo.

Ao final da conversação, após a saída do amigo, a senhora Gandhi questionou o marido, confusa: "Não entendi a sua postura. O problema do meu amigo era o mesmo que o do mês passado. Logo, você poderia ter dado a mesma resposta que o ofereceu hoje. Por que você nos fez esperar todo esse tempo?"
Ao que Gandhi concluiu: "É que no mês passado eu também comia muito sal."

Bruno Gomes
09/06/12

* Inspirado em um fato real.

domingo, 6 de maio de 2012

MANUSCRITO

Querido manuscrito,
Fiel depositário dos íntimos segredos de minha alma.
Depois de Deus, foste tu o meu fiel confessor, o espelho do meu ser.
O mundo não me conhece; tu, sim.

E eis que a ti me apresento tal como sou, com as minhas fraquezas.
Para contigo, sou homem; para a sociedade, um missionário.
Muitos me julgam impecável.
Por que me pedirão o impossível?

Por que exigir do simples homem a força do gigante;
Quando não passa de pigmeu igual aos seus semelhantes?

Não sou virtuoso, não; mas sou razoável, essencialmente racionalista.
Não busco a santidade, mas o progresso, porque, em suma, que é a santidade na Terra, segundo a consideram as religiões?
É a intolerância de um homem por si mesmo, é o aniquilamento do seu corpo, é a postergação de todas as Leis Naturais!

Poderá tal santidade ser grata aos olhos de Deus?
Acaso se comprazerá Ele vendo seu filho lutar como uma fera sedenta contra si mesmo?

Bruno Gomes.
04/05/2012

* Inspirado na obra "Memórias do Padre Germano".

quinta-feira, 1 de março de 2012

(DES)RESSENTIMENTO

Quando um afeto torna-se um desafeto
Empreende todos os esforços por mantê-lo no coração
Busca-o e, humildemente, pede perdão por tuas faltas
Confessando-te falível e não isento de defeitos

Ao teu turno, desculpa também as ofensas recebidas
As palavras e agressões vindas no momento do embate
Ouve com compreensão e simpatia os motivos do outro
Como também precisa destas virtudes para com as tuas razões

Todavia, se o ex-afeto se nega ao diálogo conciliador
Obstinando-se contra o reencontro reparador do mal-entendido
Preferindo permanecer mergulhado na mágoa e no rancor
Os últimos recursos disponíveis são o silêncio e a oração

Dói dormir sabendo-se não querido por alguém
E ser alvo de ironias, hostilidade e desdém gratuitos
Mas uma vez que fizestes tudo o possível pela reconciliação
Permaneces, pois, com a consciência calma e tranqüila

Ores sinceramente em favor do outro e permaneces sempre aberto
Nunca se opondo ao retorno a amizade e a convivência sadias
Não se permitindo qualquer sentimento infeliz para com ele
E deixando ao tempo a tarefa de colocar tudo no seu devido lugar

Jesus também foi alvo de antipatias e dores morais
Não se surpreenda, portanto, que o mesmo lhe aconteça
Mas permanece como Ele, com os braços sempre estendidos
Para o retorno do (des)afeto como irmão, colega, amigo

Bruno Gomes
01/03/2012

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O POETA ESPANTALHO

Poemas vazios que jazem em folhas secas, brancas
Versos pobres de singeleza, encanto e singela esperança
Letras garrafais da mente lúcida, translúcida
Que viajam por mãos pedintes, avaras, astutas

Escreve o que vive e, talvez, o que sonha
Infrene, solícita, em dor, melodia risonha
Mergulhando no oceano dentro de si, artimanha
Olhos virados para dentro, em silêncio, alcança

Sílabas que caem doces do ar, flutua, me ensina
Juntas, separadas, misturadas, em rima
Um sentido não-sentido, sentindo, minha sina
Bailando ao meu redor, ingênua, bela, menina

Frases desorganizadas, altivas, atônitas
Orquestra de verbos desafinados, desarticulados, sinfônica
De amores não-amados, de beijos não dados
Por corações alados, em sutis toques roubados

Tudo o que eu queria era tornar-me algo bonito
Através do amor, do estertor, do infinito
Pela natureza, pela claridade, pela divindade
Escravizado sem correntes, libertado sem saudade

Mas ainda assim escrevo páginas, capítulos, livros
Que deverão ser construídos, revisados, vividos
Mesmo que recusados, cassados, queimados
São todos meus, sem nome, palhaço, espantalho

Rei sem coroa, ator sem palco, poeta sem pena
Vagando em vida, nua, desnuda, pequena
Contemplando luas, ruas, estradas, cenas
E não encontrando um fim retórico para os seus poemas

Vivendo ilusões, vestindo rasgados calções
Regando flores com lágrimas, entoando antigas canções

Bruno Gomes
25/02/2011

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O GURU INÚTIL

Uma conhecida parábola oriental fala de uma senhora viúva que resolveu abrigar um sábio guru no quintal da sua residência.
Verificando a necessidade daquele homem piedoso, deu-lhe comida, abrigo e tranqüilidade para que cumprisse a sua rígida rotina de meditações objetivando a iluminação.

Certa feita, desconfiada sobre a integridade do guru, a senhora resolveu aplicar-lhe uma prova.
Contratou a preço de cinco moedas de ouro uma belíssima bailarina, vendedora de ilusões e dedicada ao comércio do corpo, para aferir a resistência do homem santo.

Na noite aprazada, a jovem adentrou o interior da cabana, tentando incendiar os apetites carnais do guru com a sua beleza e sensualidade.
Bailou, despiu-se, o tocou e o provocou, mas o homem mantinha-se impassível e imperturbável em seu superior estado de plenitude.

Então, após três noites, ela desistiu e retornou até a senhora dizendo: Desculpe-me, mas eu tentei conquistar o guru de todas as maneiras possíveis e ele não cedeu. Ele realmente é um homem santo.

Intrigada, a hospedeira do guru indaga: Mas ele não fez nada, não lhe disse algo?
- Nem mesmo uma só palavra, respondeu a jovem.
- Então toma as tuas moedas. Você fez a sua parte, finalizou a senhora.

Inusitadamente, a viúva tomou de uma larga vassoura e seguiu aos gritos em direção à cabana, assustando a vizinhança que conhecia o carinho e a benevolência com o qual tratava o meditador.

Em lá chegando, espancou o homem, destruiu a cabana e o expulsou, dizendo em alta voz para que todos a ouvissem: Testei esse homem através da luxúria. Ele resistiu por três noites ao apelo de atraente e sedutora jovem, permanecendo em estado de orações, e quanto a isso eu o aplaudo. Porém, suas práticas são de nenhuma utilidade para o mundo, porque ele nada disse àquela jovem que pudesse servir de orientação e força na restauração de um caminho novo e digno. Se é um homem de Deus, deveria agir pelo bem e não somente evitar o mal.

Bruno Gomes.
13/01/2012

Baseado em um conto do livro Laços de Afeto de Ermance Dufaux.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

ODEIA-ME OU AMA-ME?

Desejaria apoderar-me de ti e estraçalhar-te
Reduzir-te em mil pedaços, queimar-te e extinguir-te
Tornar a tua lembrança sobre a Terra uma lenda, um mito
Um sonho ruim do qual se acorda para não mais recordar

Precipitar-te nas profundezas do oceano para que habites os abismos
Para sempre longe da vida e dos olhos humanos
Torturar-te como me torturas, maltratar-te como me maltratas
Afundar-te no rio de lágrimas que verto por causa de ti

Mas tudo isso apenas a ti me assemelharia
Oh, odiosa e inditosa sensação
Cruel destruidora das alegrias e da paz
Terrível verdugo meu, pergunto-te: odeia-me ou ama-me?

Bruno Gomes
11/01/2012

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

NADA...

O papel está morto sem palavras
A pena é ociosa sem um poema
Uma estrela solitária não faz constelação

O mundo é vazio sem estórias
O coração sem você, nada...

Ilusionista, contorcionista
De palavras...

Bruno Gomes
04/12/2011

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O MENINO DE OURO

Curioso quando alguém fala que você é um menino de ouro.
Na verdade, ninguém deveria falar isso para outrem: "Você é um(a) menino(a) de ouro."
E o motivo é muito simples: a vida não pode ouvir isso, pois ela é extremamente exigente com pessoas de ouro.
Ela está sempre à espreita, à procura de meninos(as) de ouro para torná-los(as) ainda mais valiosos(as).
O objetivo dela é certamente louvável, sem dúvida. Mas a forma utilizada por ela nem tanto...

Afinal, uma vez que ela julga que você é um "ser de ouro", isto significa (para ela) que você já está preparado para passar por determinados desafios que outras pessoas, que supostamente não são de ouro, ainda não estão prontas para experimentar.
A vida simplesmente pensa: "Ora, ele(a) é um(a) menino(a) de ouro. Dessa forma, já podemos fazê-lo(a) passar por certos obstáculos para que ele(a) cresça ainda mais."

Desse modo, nunca fale a alguém que ele(a) é um(a) menino(a) de ouro.
Pois nós estamos longe de ser meninos(as) de ouro. E muito menos estamos prontos para vivenciar todas essas provas extras.
Nós somos no máximo pedras brutas, folheadas por algo que nem é tão puro assim como pensam.

Mas como dizer isso para a vida, uma vez que as outras pessoas já disseram o contrário antes?
Como dizê-la: "Olha só, pega leve comigo, pois as pessoas estão equivocadas a meu respeito. Eu tenho mais de boa-vontade do que de pureza propriamente dita."

Mas ai as pessoas vêm e falam: "Você é um menino de ouro!"
Psiu, cala a boca!
A vida tem ouvidos de tuberculoso e é por demais exigente!

Ademais, o que você entende sobre ouro? Você é um ourives?
Será que você não está julgando o espírito alheio pelo brilho opaco da casca que o envolve?
Há outras formas de estimular o crescimento de alguém: estando ao lado dele(a) em momentos difíceis, o velho tapinha no ombro, um sorriso motivador...

De qualquer forma, diga o que digam, não podemos ser nem mais nem menos do que somos. Só nos resta ser nós mesmos de uma forma honesta.
Com os nossos defeitos, nossos medos e inseguranças... mas repletos de boa-vontade para crescer.

Valorizando aquilo que gostaríamos de ser, mas também valorizando o que já conseguimos deixar de ser.
Não neurotizados naquilo que não deveríamos mais fazer, mas focados no que já devemos estar fazendo, com os valores que já conseguimos amealhar.
Querendo ser melhores e não "os melhores".

E quem sabe essa pedra rude, lapidada pelas provas extras enviadas pela vida, se transforma em algo realmente valioso?
Talvez esse valor não seja o de uma pepita de ouro propriamente dita, mas o de uma pedra com uma beleza singular, única, daquelas que você encontra na beira da praia e fica contemplando...

Bruno Gomes
19/10/2011

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O JARDIM DO PRÍNCIPE

Certo dia, ao sair pelos portões principais do seu castelo, um príncipe foi tomado por grande espanto. A mais bela roseira do seu formoso jardim estava murchando. Ao aproximar-se dela, ele perguntou: Querida roseira. Você era a planta mais preciosa do meu jardim. Por que você está perdendo a sua beleza? Caso continue nessa atitude, muito em breve você morrerá.
A roseira respondeu: Estou morrendo porque não consigo ser tão alta quanto o carvalho. Olho para ele e o vejo tão grandioso, quase tocando os céus. Os pássaros fazem casas nos seus longos braços. E isto faz-me entristecer-me. Não tenho mais alegria de viver.

O príncipe então olhou para o carvalho. Mas para a sua grande surpresa, ele também estava morrendo. O seu troco estava curvado e os seus galhos sem folhas. O príncipe acercou-se dele e interrogou: Querido carvalho. Você era antes tão majestoso, erguia-se ereto sobre todo o meu jardim. Por que você está perdendo a sua força? Onde está toda a sua glória de outrora?
O carvalho respondeu: Estou enfraquecido pelo fato de não poder produzir flores perfumadas como a roseira. O aroma que ela exala atrai todos os animais para a sua sombra. A sua beleza faz com que, mesmo tendo espinhos, todos sintam-se encantados ao tocá-la e sentir a sua suavidade.

O príncipe se afastou e pôs-se a meditar a respeito do que estava acontecendo no seu jardim. Nesse momento, ele viu que, da fresta de uma rocha, havia nascido uma pequenina flor. Mas apesar do seu tamanho, ela possuía um aroma raro que impregnava todo aquele que por ela passasse. As suas pétalas eram multicoloridas e brilhavam ao serem tocadas pelo sol.
Ao vê-la, o príncipe sorriu e perguntou: Querida flor. Ainda me lembro do dia em que plantei a sua semente sobre esta rocha. Mas não achei que você iria vingar. Afinal, você estava sobre um terreno áspero e ninguém iria vê-la e admirá-la. No entanto, você exterioriza vida abundante. Como entender isso?

Ao que a flor respondeu: Bem, majestade. Se você me plantou, é porque achou que eu poderia ser útil em minha pequenez. Eu sei que não sou tão conhecida como a roseira e nem tão alta quanto o carvalho. Entretanto, uma vez que estou aqui, é porque há um bom motivo. Dessa forma, não me compararei com elas, tentando ser melhor ou pior que as outras plantas. Apenas tenho me esforçado por ser tudo aquilo o que posso ser.

Bruno Gomes
21/09/2011

Baseada em uma parábola contada por Antônio Alencar na Semana da JEPE 2011.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A PIANISTA

Jovem e solitária pianista
Sozinha sobre o palco dos seus sonhos
Sem ovações, honras ou aplausos, emoção mista
Amada apenas quando parte em sorriso tristonho

Meditando sobre o silêncio para aprender a música
Juntando-se aos pecadores para adquirir inocência
Compondo canções inspiradas na maior da sua dor última
Escrevendo melodias nascidas da pureza da sua essência

Realizando estudos sobre longas noites de inverno
Através dos belos dias de primavera de tempos imemoriais
Ao fundo do teatro, deitada a sós no jardim eterno
Coberta por flores, contemplando a profundeza dos céus lustrais

Doce piano, obedece aos seus dedos finos e ágeis
Encantando, criando delicados aromas de sons
Perfumes desconhecidos, claridade e cores inefáveis
Harmonia inebriante, misto de prazer e misteriosos tons

Entre labaredas de fogo, melodia e constelações
Suas notas ecoam em mim como tremores e mil trovões

Bruno Gomes
31/03/2011

terça-feira, 16 de agosto de 2011

O RABINO

Um velho rabino encontrava-se em uma fila, no interior de uma grande estação de trem em Israel. Era meio dia e o sol a pino tornava o ar abafado no local repleto de pessoas. Neste momento, passou um dos seus discípulos que ao ver o mestre curvado sobre o cajado se compadeceu dele.
Ao aproximar-se, disse: "Mestre, por gentileza, sente-se um pouco aqui na sombra e descanse. Eu irei até lá pegar a sua passagem."
O mestre sentou e agradeceu ao jovem. O discípulo rompeu toda a fila e, após 30 minutos, trouxe a passagem.
O mestre sorriu e o agradeceu: "Obrigado meu filho. Deus te abençoe por isso."

Uma vez com a passagem nas mãos, o rabino ergueu-se e dirigiu-se para o trem. Ao ver isso o discípulo perturbou-se, tocou o velho judeu e falou: "Mestre, perdoe-me, mas eu também vou viajar. Estou indo para outra cidade. Entretanto, eu usei todo o dinheiro que possuía para comprar a passagem para o senhor. Creio que você não me entendeu. Eu fiz o favor de pegar a passagem para você, mas não disse que ia oferecê-la de graça. Agora eu estou sem dinheiro para viajar."

Ao que o rabino arrematou: "Meu filho, você não tem dinheiro para viajar? Eu também não. Como preciso visitar um parente doente em uma cidade próxima, eu fui para a fila e orei a Deus para enviar-me alguém. E Ele me mandou você. Agora entre na próxima fila e, caso você tenha suficiente confiança em Deus, certamente Ele enviará alguém para pagar a sua passagem."

Bruno Gomes
16/08/2011

Baseado em uma palestra do profº drº Severino Celestino.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

NA BUSCA POR SÁBIOS

Conta-se que o grande imperador Akror possuia 10 sábios. Eles eram chamados ''As 10 Jóias'', mais preciosas que as maiores riquezas do tesouro real.
Certo dia, Akror estava muito zangado. Sentou-se majestoso em seu alto trono, chamou os 10 sábios e os disse: Vocês estão aqui desde que eu sou uma terna criança e o povo afirma que vocês são os homens mais sábios do mundo. Todavia, eu nunca fui capaz de aprender absolutamente nada com vocês. Qual o problema? Vocês me acompanham há 30 anos e eu continuo o mesmo. O que vocês estão fazendo aqui? Qual o utilidade de vocês?

Ao ouvir o questionamento, os 10 sábios permaneceram calados, dolorosamente constrangidos. Uma criança viera com um deles, pois desejava ver a corte. Ela sentou-se no chão, aos pés do trono de Akror.
Ao ouvir o imperador dirigir-se daquela forma aos sábios, ela começou a sorrir, quebrando o silêncio que se abatera sobre o salão.
Akror disse, irritado: Por que você está rindo? Isto é um insulto à corte! Seu pai não lhe ensinou boas maneiras?
A criança respondeu: Eu estou rindo porque estes 10 sábios estão em silêncio. Eu sei por que eles estão assim e você não sabe. Compreendo agora por que você nunca foi capaz de se beneficiar da presença deles.

Akror olhou para criança e perguntou, irônico: Então você pode me ensinar alguma coisa?
A criança respondeu: Sim, eu posso. Mas com uma condição.
Akror indagou: Qual?
A criança disse: Você deverá sentar aqui onde eu estou e eu sentarei ai onde você está. Então, você me perguntará o que deseja, mas como um discípulo e não como um mestre.

Sentindo o forte impacto, Akror contemplou o rosto inocente da criança e notou uma profunda antiguidade nos seus olhos, como se provindas de muitas experiências.
Ao que ela finalizou: A meta real não é trazer sábios ao seu palácio. O ponto é como você chega aos sábios, porque no próprio ato de se dirigir a eles, você aprende.

Conta-se que Akror sentou-se aos pés do trono, agora ocupado pela criança, e concluiu: Não há mais necessidade de perguntar nada. Simplesmente por estar sentado humildemente aos seus pés, eu aprendi muito.

Bruno Gomes
02/08/2011

Baseado em uma palestra de Osho.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

SÓCRATES E O DESAPEGO

Sócrates e seus discípulos caminhavam pelas ruas de Atenas quando, ao fim de uma grande praça, avistaram um mercado. O sol estava alto naquela tarde e o ambiente regurgitava de pessoas das mais diversas regiões. Todas elas saiam das galerias curvadas, carregando as mais variadas mercadorias: objetos valiosos, jóias preciosas, roupas feitas de finos tecidos asiáticos, perfumes raros.

Os mercadores experimentavam uma íntima satisfação. Os atenienses abastados deixavam grandes fortunas pelos materiais exóticos ali vendidos e que tinham sido desembarcados nos portos do Mediterrâneo.
Sócrates observava silenciosamente, para a inquietação dos seus discípulos.

De repente, ele quebra o silêncio e diz: Esperem-me aqui. Adentrarei o mercado.
Os discípulos alegraram-se diante da possibilidade do mestre lhes trazer algo dentre a imensa diversidade de coisas que tinham diante dos olhos.

Após duas horas, Sócrates sai de mãos vazias. Não obstante, trazia um luminoso sorriso nos lábios. Os discípulos entreolharam-se desconfiados, sem entender a situação.
Finalmente, um deles questionou, muito frustrado: Mestre. Nós o aguardamos aqui por mais de duas horas sob o sol quente na expectativa que nos trouxesse algo do mercado. Todos saem felizes com as suas aquisições e você sai satisfeito com as mãos vazias?

Ao que Sócrates respondeu: Sim, abandono esse mercado com uma satisfação muito justa. Observando a enorme quantidade de objetos à venda, eu dizia a mim mesmo "quantas coisas me são desnecessárias!"

Bruno Gomes.
26/07/2010

sábado, 23 de julho de 2011

O PALÁCIO DE MIL ESPELHOS

Um grande general construiu um palácio e ordenou que todas as paredes fossem revestidas com milhares de espelhos. Entrar nesse palácio era algo maravilhoso. Você podia ver o seu rosto em milhares de espelhos à sua volta. Milhões de "você" ao seu redor, nos mais diversos ângulos. Você podia acender uma pequena vela e ela era refletida em milhares de espelhos, de modo que todo o palácio ficava completamente iluminado pela luz de apenas uma chama.

Certa noite, por acaso, um cão perdido entrou ali. Olhou em torno e ficou muitíssimo assustado: milhões de cães olhavam para ele. Ficou tão apavorado que esqueceu completamente da porta por onde entrara. Naturalmente, com milhares de cães à volta, a morte era certa. Começou a latir e milhares de cães latiram de volta. Ficou agressivo e milhares de cães o olharam com uma expressão feroz. Então, ele se atirou contra os espelhos, em uma luta desesperada contra milhares de inimigos.

Pela manhã, foi encontrado morto no salão do palácio. E não havia ninguém lá, exceto o próprio cão.

Esta é um pouco da situação de cada um de nós. Nós lutamos contra pessoas, coisas e situações que nada mais são que reflexos nossos. Nós as vemos não necessariamente como elas realmente são, mas como nós nos projetamos nelas, quando colocamos nelas uma máscara cuja imagem nada mais é do que um reflexo de nós próprios. Pois tudo o que nos incomoda nos outros pode nos levar a um melhor entendimento sobre nós mesmos.

Bruno Gomes
20/07/2011

Baseado em um conto hindu.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

ISTO TAMBÉM PASSARÁ

Um poderoso rei oriental, venerando governante de numerosos domínios, estava em tal posição de glória que mesmo os grandes sábios da sua época eram seus simples servidores.

Certo dia, sentindo-se perturbado e confuso, ele chamou os sábios e disse:
"Não sei por qual motivo, mas algo me impele a procurar um anel que me permita manter o meu estado de espírito em perfeito equilíbrio. Preciso ter um tal anel, que deve ser aquele que me fará alegre quando eu me sentir infeliz, evitando o desespero, e que, ao mesmo tempo, ao contemplá-lo, me faça ficar triste quando eu me sentir contente, não me permitindo exaltar-me em excesso."

Os sábios se reuniram em conselho e se colocaram em profunda e imperturbável meditação.
Finalmente, após a longa reflexão, eles chegaram a uma decisão quanto às características do anel que deveria servir ao rei.

O anel que eles imaginaram era um sob o qual estava inscrita a frase:
- ISTO TAMBÉM PASSARÁ.

Bruno Gomes
18/07/2011

Inspirado em um conto Sufi.

domingo, 10 de julho de 2011

O APRENDIZ DE ANJO

Deus possuía na sua famosa escola de anjos, localizada no Paraíso, diversos alunos iluminados.
Esses aprendizes vinham de diversas nações da Terra e mesmo de outros mundos distantes, todos ansiosos por se tornarem seres angélicos.

Entre eles, havia um jovem que se destacava dos demais pela sua grande dedicação e disciplina, e no qual Deus colocava grandes esperanças para o porvir.
Todavia, apesar de ser conhecido como portador de grande conhecimento, sabedoria e bondade, esse aluno não conseguia libertar-se de certas idéias materiais que trazia consigo, o que levava Deus a aconselhá-lo abundantemente a esse respeito.

Certo dia, após uma das exposições divinas, esse aluno confessou a Deus:
"Senhor, custa-me entender em minhas reflexões o conceito de eternidade."

Deus o ouvia com a Sua infinita bonomia e tranqüilidade.

Ao que o jovem perguntou:
"Para o Senhor, um bilhão de anos corresponde a que período na eternidade?"

Deus pensou e respondeu:
"Meu filho, na eternidade um bilhão de anos corresponde a apenas um segundo."

O aluno meditou rapidamente na resposta profunda e voltou a interrogar:
"Senhor, e um bilhão de reais, quanto vale no Seu conceito?"

Deus sorriu e esclareceu:
"Meu filho, um bilhão de reais equivale-Me a apenas um centavo."

Deslumbrado e de olhos brilhantes, o jovem aluno redargüiu:
"Oh, Senhor! Dá-me um centavo?"

Ao que Deus calmamente concluiu:
"Espere um segundo."

Bruno Gomes.

Baseado em uma estória do seminário "Crianças Índigo e Cristal" pelo orador Divaldo Franco.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

O JOVEM E O ANEL

Certo dia, um jovem procurou Bharjansing e disse que a sua filosofia de vida era errada, e que a mesma o guiaria para a perdição.

Bharjansing sorriu, tirou um anel do seu dedo e, após entregá-lo, disse: "Leve isto para os mascates e veja se pode conseguir uma moeda de ouro por ele."

O jovem foi até o mercado, mas nenhum mascate ofereceu mais do que uma só moeda de prata pelo anel, considerando-o sem valor.

"Agora", disse Bharjansing, "leve o anel a um verdadeiro joalheiro na cidade e veja o quanto ele pagará."

O jovem foi até a galeria e o joalheiro, muito espantado com o valor do anel, ofereceu mil moedas de ouro pela peça.

O jovem voltou assombrado.

"Então", disse Bharjansing, "o seu conhecimento sobre a minha filosofia de vida é tão vasto quanto o conhecimento dos mascates sobre jóias. Se você quer avaliar pedras preciosas, torne-se um joalheiro."

Bruno Gomes.

- Homenagem aos 9 anos da morte de Chico Xavier (1910-2002).

Baseado em um conto Sufi.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O SONHO DE BRUNO

O jovem Bruno sonhou certa noite que estava no mais alto dos céus.
No lugar que se encontra acima mesmo das estrelas.

Era tudo tão lindo à sua volta – um vale silencioso, o sol nascendo atrás das colinas distantes, flores perfumadas inebriando o ar, pássaros multicoloridos a cantarolar...
E ele sozinho, sob a sombra de uma frondosa árvore de vasta copa, diante de um rio cristalino que corria calmamente na direção do infinito.

Mas tão logo se reconheceu ali, ainda envolvo em surpresa, Bruno começou a sentir fome.
E, aparentemente, não havia ninguém ao seu redor para ajudá-lo.

Dessa forma, ele gritou: "Olá! Tem alguém aí?"
E, de repente, um homem sorridente e simpático apareceu, envolto em trajes curiosos.
Após cumprimentá-lo, o estranho falou-lhe gentilmente: "Estou às suas ordens, senhor. Tudo o que mandar, eu farei."

Assim sendo, como tinha fome, Bruno pediu primeiramente a comida que necessitava.
E tudo aquilo que solicitava, era imediatamente atendido.
Não se perdia um só minuto: tudo estava ali, rápida e sucessivamente.

Comeu farto banquete até sentir-se satisfeito, experimentou bebidas exóticas e dormiu bem durante todo o dia.
Tudo o que precisasse lhe era trazido: belas roupas, riquezas raras, diversão constante, prazeres variados.

Se desejava uma mulher bonita, lá estava ela o esperando adornada em jóias. Se necessitava de uma cama confortável para a noite, ali encontrava-se ela, como em um passe de mágica.

Um desejo, um pedido, uma realização...
E isto continuou por vários dias ininterruptos de doce contemplação.

Todavia, com o passar do tempo, Bruno começou a sentir-se desgastado. Tudo era bom demais.
Não mais podendo tolerar tal situação, ele começou a procurar por alguma miséria. Afinal, tudo ali era tão bonito.

Começou a procurar preocupações, pois jamais havia vivido sem elas; alguma ansiedade, alguma coisa pela qual se sentisse triste e deprimido.
E tudo era tão pleno, tão insuportavelmente perfeito!

Desse modo, ele chamou o estranho e desabafou: "É demais, basta! Gostaria de ter algum trabalho para fazer. Estou há dias aqui sentado inutilmente, de mãos vazias e mergulhado em ociosidade. Estou ficando entediado!"

O homem generoso respondeu: "Posso fazer tudo pelo senhor, mas isso não me é possível. Qualquer outra coisa que necessite, estarei pronto para lhe dar. Ademais, para quê procurar trabalho? Quando tudo é imediatamente satisfeito, não se precisa trabalhar!"

Ao ouvir isso, Bruno disse: "Mas estou saturado! É melhor estar no inferno, caso nenhum trabalho me possa ser oferecido."

O homem sorriu e concluiu: "E onde o senhor pensa que está?"

Bruno Gomes.
29/10/2010

Baseado em uma palestra proferida por Osho em Poona, Índia (1975).

terça-feira, 21 de junho de 2011

O BEM-PENSAR

Se existe uma coisa no mundo que é difícil de controlar é o pensamento.
Afinal de contas, você não pode simplesmente parar de pensar.
A mente é um instrumento dinâmico e não um aparelho com um botão on/off que você liga e desliga conforme as circunstâncias.

Os estudiosos dizem que nós temos milhares de pensamentos por dia, sendo que não temos a mínima consciência da imensa maioria deles.
Na verdade a coisa é tão complexa que você pode pensar em fazer alguma coisa e não fazê-la. Entretanto, você não pode pensar em não pensar em alguma coisa, porque o simples fato de pensar em não pensar nela já é uma forma de pensar nela no final das contas.

"Não pense em um abacaxi", e a imagem dele é a primeira coisa que aparece na sua tela mental.
Eis porque não devemos falar: "Não pense nada", pois isso é impossível.
O ideal seria dizer: "Pense em nada", pois mesmo sendo o nada um nada, ele é uma coisa para o pensamento se fixar, mesmo sendo um conceito abstrato.

Os estímulos exteriores que nos chegam à mente são inumeráveis, demandando a nossa constante atenção. A própria realidade de se ter órgãos de visão e audição faz você ter o imperioso impulso de pensar: você vê uma coisa e pensa no que viu; você ouve uma coisa e pensa no que ouviu.

Dessa forma, ao nos conscientizarmos disso, iniciamos um novo e grande desafio: como não posso parar de pensar, me esforçarei para sempre ter apenas bons pensamentos.
Teoricamente é fácil, mas a prática...

O que mais dificulta o nosso bem-pensar é a nossa tendência de tudo julgar. Nós vemos alguma coisa e temos a irremediável necessidade de emitir um julgamento sobre ela: isso é certo ou errado, é bom ou ruim, é verdadeiro ou falso, é bonito ou feio, e assim por diante.
Ainda é difícil vermos algo e termos uma atitude de simples contemplação: apenas observar a situação, objeto ou pessoa, sem emitir nenhum juízo.

Infelizmente, nós, pertencentes à civilização ocidental, não temos a cultura de realizar exercícios de meditação, de respiração, de pacificação da mente, o que certamente ajudaria na tarefa. E isso é sempre um fator gerador de culpa e ansiedade para as pessoas de boa-vontade, que querem melhorar-se, pelo fato de cotidianamente serem visitadas por maus pensamentos inesperados, e alguns até mesmo inoportunos.

Ora, o bem-pensar é um hábito e todo hábito é uma necessidade humana. O que equivale dizer que quem não os tem bons os terá maus; mas os terá de qualquer forma.
Desse modo, cabe-nos o esforço por desenvolver esse novo hábito do pensar bem. E como todo hábito, ele é adquirido pela repetição.
Você repete constantemente a ação de pensar positivamente e de não julgar, até que isso gere um novo automatismo mental, uma espécie de 2ª natureza.

Afinal, ser visitado por maus pensamentos é natural, pois estamos mergulhados em um mundo de vibrações heterogêneas. Mas o importante é não vitalizar o mau pensamento.
Ou seja, o problema não é a visita, e sim a vitalização.

Por exemplo: alguém faz algo com você que não te agradou. É provável que você seja visitado por um pensamento malsão referente a isso. É o hábito antigo querendo se impor.
Todavia, você não o agasalhará, evitando vitalizá-lo com pensamentos de ressentimentos e mágoa contra a pessoa, desejo de fazê-la algum mal, vingar-se, etc.

Essa visita do mau pensamento acontece como nas visitas cotidianas: o pensamento baterá à sua porta e você a abrirá naturalmente, sem angústias. Se for bom, você o deixará entrar; caso contrário, você fechará a porta e voltará para os seus quefazeres e, em alguns minutos, nem mais se lembrará dele.

Pois o lutar contra o pensamento é uma tarefa infrutífera, já que o mesmo agirá como uma mola: quanto mais você a empurra no sentido contrário, mais aumenta nela a força de retorno.
Como diria Carl Gustav Jung: "Aquilo a que você resiste, persiste."

Aí encontramos a diferença entre o ser "visitado" pelo mau pensamento (que é compreensível) e o "vitalizar" o mau pensamento (que já é uma questão moral).

O problema, é que, iniciadas as primeiras experiências (geralmente de resultados insatisfatórios), nos desestimulamos facilmente, julgando ser impossível alcançar a meta.
Ora, hábitos longamente cultivados, muitos deles por anos a fio, não serão substituídos de uma hora para outra, após poucas e tímidas tentativas.

Mas a mudança deve ser iniciada mesmo assim, através do mecanismo da repetição, com insistência e confiança na eficácia, pois hoje colhemos nos nossos hábitos os frutos de semeaduras negligentes estimuladas no passado.
A plantação das sementes dos bons pensamentos deve ser iniciada imediatamente e não postergada, sob o argumento da dificuldade.

Essa nova forma de pensar, agregando-se e tornando-se parte do comportamento, é o primeiro passo para a disciplina e o controle mental, totalmente canalizado para o bem, que virá oportunamente.

Bruno Gomes.
09/12/2010

quinta-feira, 16 de junho de 2011

ONDE ESTÁ A FELICIDADE?

Não sendo natural o fato de alguém desejar o mal para si mesmo, todos nós somos atraídos para a felicidade.
É um impulso inevitável que nos dirige na direção daquilo que julgamos que nos fará felizes ou, pelo menos, nos colocará no caminho que nos levará a felicidade que almejamos.
Algumas pessoas chegam mesmo a acreditar que nós nascemos exclusivamente para isso: para buscarmos a felicidade onde ela se encontre.

Dessa forma, ordinariamente nós a buscamos em determinadas coisas, algumas delas convencionadas por outras pessoas como indispensáveis para nos trazer a felicidade.
Isto é, uma vez em posse de todas elas, em tese, nós seremos felizes.
O que nos leva a concluir que, por extensão, quem não as possui, não poderá ser feliz.

Entretanto, quando nós analizamos os vários exemplos do dia a dia, verificamos que esse conceito de felicidade não é aplicável em um universo muito vasto de pessoas.
Afinal, por que tantos seres sorriem nas suas dificuldades e outros tantos choram sobre as suas abastanças?

Ser feliz é ter uma vida isenta de problemas e desafios, onde sempre gozamos de facilidades e possuímos tudo o que necessitamos?
Se positivo, por que há pessoas que têm tudo aquilo que julgamos fazer uma pessoa feliz, e não o são? E por que existem outras tantas que não possuem nada daquilo que achamos fazer uma pessoa feliz, e o são?

Quem nunca visitou pessoas em hospitais que sofrem de doenças degenerativas dolorosas, sem nenhuma perspectiva de cura e que nos surpreendem com um sorriso de simpatia e bom-humor, repletas de confiança e otimismo nos seus diálogos? Ao mesmo tempo, quem nunca teve amigos jovens e saudáveis, mergulhados em depressão e inquietações existenciais as mais afligentes?

Como solucionar esse aparente paradoxo?
O que concluir dessa contradição?

A solução é muito simples: a felicidade não está em nada externo.
Muito embora existam coisas que contribuam para nos trazer segurança, elas não são necessariamente fatores imprescindíveis à nossa felicidade, como bem mostram os muitos exemplos que possuímos diante dos nossos olhos.

Exemplos de indivíduos que não são portadores desses fatores-felicidade estabelecidos e que, no entanto, são portadores de jovialidade e excelente disposição para o bom combate diário. Enquanto que, ao lado desses, vemos aqueloutros possuidores de todos esses elementos pré-convencionados como propiciadores da felicidade e que, não obstante, se encontram mergulhados em insatisfações, amarguras e conflitos os mais perturbadores.

É certo que nem todos os dias da nossa existência serão de sol e de festas. E nem poderia ser, no mundo de impermanências no qual vivemos. Haverá dias mais difíceis que outros.
O que faremos então? Perderemos a nossa paz por causa desses momentos transitórios ou deveremos vivenciá-los com naturalidade e solucioná-los serenamente, não permitindo que nos afete negativamente e comprometa a nossa alegria de viver?

Essa é uma reflexão importante que todos devem fazer, pois o problema muitas vezes não está ''no problema'', mas sim na nossa forma de encará-lo, o que faz com que ele não tenha nenhum impacto em determinado ser e seja motivo de desespero para outro, tomando proporções que não correspondem à realidade.

A experiência nos mostra algo patente: a felicidade não se encontra em uma vida onde tudo é tranqüilidade e um perpétuo mar de rosas.
Mas a verdadeira felicidade reside em um estado interno de contentamento, que nos permite transitar pelas diversas situações da vida, algumas tristes e outras alegres, sem perder esse clima emocional de satisfação e de júbilo íntimo por estarmos simplesmente vivos, por termos ideais, por podermos oferecer amor e por confiarmos em um futuro melhor.

Bruno Gomes
15/06/2011

quarta-feira, 8 de junho de 2011

PODER E DEVER

"Nem tudo o que eu posso fazer, eu devo fazer;
E nem tudo o que eu devo fazer, eu posso fazer."

Esse é um conceito conhecido por todos e aparentemente fácil de ser colocado em prática, não é mesmo?
Em uma análise superficial, não nos parece ser necessária uma profunda filosofia para compreendê-lo.

Por exemplo:
Eu posso andar pelado pela rua? Posso, sem dúvidas. Nada me impede de sair sem roupas por aí.
Mas eu devo fazer isso? Certamente que não. Além de ser algo totalmente inoportuno, essa atitude poderia me trazer sérias conseqüências legais. Afinal de contas, isso é um grave atentado ao pudor.
Por outro lado, eu devo fazer um mestrado? Obviamente que sim, pois é sempre bom se aprimorar profissionalmente e aprender coisas novas no seu campo de estudos.
Mas eu posso fazer isso agora? Não, pois me falta o dinheiro para isso, o que torna o plano inviável, pelo menos no momento atual.

Aplicar essa teoria no cotidiano parece simples, sem maiores complexidades. O problema não estar no entendimento da idéia, mas sim no saber criar os critérios que irão reger o nosso comportamento baseado nela.
É neste ponto onde se encontra toda a confusão, pois é necessária uma boa dose de coerência para estabelecer as diretrizes da nossa ação.

Afinal, quem não tem o bom-senso para fazer esse exame da forma correta, costuma fazer o que pode quando não deve e o que deve quando não pode, e isso enrola a vida de qualquer pessoa.
Pois nesse paradoxo do poder e do dever, é indispensável certa habilidade para saber:
- Diferenciar o "querer fazer" do "ser conveniente fazer";
- Reconhecer o "desejar realizar" do "quando realizar".

Uma das coisas que mais dificulta essa apreciação é que, muitas vezes, nós não sabemos o que realmente queremos, quanto mais distinguir o momento apropriado para tentarmos atingir os nossos objetivos.
Seria muito bom que pudéssemos viver só das nossas boas intenções, mas é importante verificar se elas são compatíveis com as circunstâncias e momentos nos quais nos encontramos, a fim de evitar que vivamos exclusivamente de ilusões e utopias.

Você pode viver esperando a pessoa perfeita chegar à sua vida. Mas não deveria fazer isso, pois assim como você não é perfeito(a) para atender todas as expectativas afetivas de alguém, não há ninguém no mundo que possa satisfazer 100% das suas.
Você deve pensar que existem pessoas boas colaborando para um planeta melhor. Mas não pode achar que não há algumas más ao lado delas. O que nos leva a concluir que, se não precisamos ficar o tempo todo com o pé atrás, ao mesmo tempo não devemos ser demasiadamente ingênuos.

O que nos sobra no final das contas?
Começarmos o processo de nos auto-conhecermos melhor, para bem compreendermos a abrangência desse pensamento que, se por um lado, é singelo, por outro, demanda um alto grau de sabedoria para saber usá-lo sempre a nosso favor.

Bruno Gomes
08/06/2011

terça-feira, 31 de maio de 2011

SOZINHO OU SOLITÁRIO?

O homem nunca se sente tão seguro na vida quanto no momento em que ele tem a certeza de que é amado por outrem. Ele sabe que existe alguém no mundo que o ama plenamente; e isso o dá segurança.
Não existe nada mais difícil do que acostumar-se com a distância daquilo a que estamos vinculados por laços fortes e que queremos ter invariavelmente perto de nós, ao alcance de um abraço, de um beijo e de um aconchego. De uma conversa animada, de um olhar de carinho e de ternura.

Afinal, como diria Victor Hugo: "A suprema felicidade da vida é a convicção de ser amado por aquilo que você é, ou melhor, apesar daquilo que você é."

Mas será que existe alguma diferença entre o está sozinho e o ser solitário?
Atualmente nós vemos uma corrida desenfreada por relacionamentos, consequência natural de um olhar precipitado sobre essas duas coisas aparentemente sinônimas, mas que não o são.
Um fato é patente e facilmente verificável: as pessoas não conseguem mais estar sozinhas, pois acham que isso significa ser irremediavelmente infeliz.

Elas podem ter dezenas de amigos queridos, familiares, companheiros de atividades, entre outros...
Mas caso não tenham um(a) namorado(a), logo sentem-se carentes e incompletas, resultados imediatos de uma insatisfação íntima consigo.
Elas não bastam ou são suficientes a si mesmas; logo, necessitam de alguém que faça isso por elas e que as preencha.

E, dessa forma, nós as vemos engatando relacionamentos após relacionamentos, acabando cada um deles muitas vezes pelos mesmos motivos e conflitos pelos quais acabaram todos os anteriores.
Assemelham-se a pequenos macaquinhos que vivem em uma árvore, pulando indefinidamente de galho em galho e nunca encontrando o seu ninho, pelo fato de o procurarem sempre em algo/alguém externo e nunca dentro de si mesmos.

O temor do se está sozinho faz parte do rol dos grandes receios da criatura humana, ao lado do medo da solidão, que é um dos gigantes que amedrontam as pessoas, gerando imensa dose de ansiedade, incerteza e inseguraça.
E essa é uma análise importante a ser feita, afinal o instinto gregário é inerente a todos os indivíduos; isto é, todos nós temos uma punjente necessidade de nos agregar, o que nos leva de forma poderosa a nos juntar, a nos reunir, a estarmos ao lado de outros seres, para a convivência saudável, o compartilhar de idéias, interesses, etc.

Esse é um instinto que encontramos desde o homem primitivo, quando ele procurava unir-se em grupos nas cavernas, nas tribos e nas primeiras comunidades. É possível observar isso até mesmo entre alguns animais, quando eles se juntam em bandos para a caça, para a procura de alimentos, para a defesa contra predadores e assim por diante.
Mas no homem esse impulso de se socializar é tão singular ao ponto de serem consideradas como verdadeiras patologias determinadas tendências que levam as pessoas a evitarem ou temerem esse contato.

Todavia, nessa análise, nós chegamos ao ponto de analisar a questão inicial: "Existe alguma diferença entre está sozinho e ser solitário?"
Toda pessoa que está sozinha é solitária? E toda pessoa que é solitária está sozinha?

Meditando sobre o assunto, eu criei certas analogias para me facilitar e que me ajudaram a separar mentalmente essas duas coisas: enquanto o estar sozinho é um estado físico, o ser solitário é mais um estado emocional.
Vou dar um exemplo para me fazer melhor compreendido:

Eu estou em casa sozinho. Não há ninguém lá além de mim. Todos saíram e eu estou só. Mas, apesar desse temporário estado de coisas, eu estou emocionalmente vinculado a várias pessoas, o que me impede de sentir-me solitário. Eu posso simplesmente sair e encontrar amigos. Posso ligar para colegas e marcar algo.
Por outro lado, referente à solidão, eu posso estar no meio de uma multidão, com milhares de pessoas ao meu redor. Posso até mesmo me encontrar em uma festa, cercado por diversos indivíduos. Mas eu não estou ligado a nenhum deles, ou seja, apesar de não está sozinho, eu me sinto profundamente solitário.

E isso leva a conclusão de que, se o estar sozinho algumas vezes é útil, o sentir-se solitário nunca o é.
Nós deveríamos valorizar mais os momentos em que nos encontramos a sós, em contato com nós mesmos, ao invés de temer essa situação.
Afinal de contas, esse é uma condição indispensável para a execução de determinadas tarefas e a realização de coisas relevantes para o homem.

Certamente Albert Einstein precisou do silêncio do estar só para desenvolver a Teoria da Relatividade, assim como Isaac Newton necessitou do mesmo recolhimento para descrever a Lei da Gravitação Universal. Mozart precisou de ocasião equivalente para focar toda a sua atenção na composição do Requiem, assim como Beethoven para escrever a sua 9ª Sinfonia. O príncipe Siddhartha Gautama demandou semelhante situação para mergulhar em meditação e tornar-se Buda. Os santos procuraram esse afastamento para se iluminarem, assim com Shakespeare para finalizar as suas famosas peças.

Será que Michelangelo pintaria com a mesma grandiosidade o teto da Capela Sistina caso estivesse em meio ao vozerio e a balbúrdia de um encontro social regado a conversações variadas, músicas infrene, barulhos irritantes e ruídos desagradáveis?

Assim sendo, não devemos recear o fato de estarmos, no momento, sozinhos(as).
E essa não é uma apologia a uma vida a sós; até porque eu não quero viver eternamente assim.
Mas aproveitemos essa circunstância, quando ela se nos apresentar, para a prática de coisas para as quais o estar sozinho(a) é um pré-requisito imprescindível: o auto-conhecimento, o estudo, a formulação de planos, a deliberação de metas, etc.

Quando cultivamos afetos, amizades sinceras e desinteressadas, mesmo que estejamos sozinhos, nunca nos sentiremos solitários, pois essa ligação emocional inevitavelmente fará com que nos sintamos constantemente inseridos e queridos pelas almas que comungam conosco da existência.

Afinal, como disse Chico Xavier: "Quem é solidário, nunca é solitário."

Bruno Gomes
29/05/2011

sábado, 21 de maio de 2011

A MÁSCARA

Já pararam para pensar o quão pejorativo é o conceito de máscara que possuímos?
Quando sabemos que alguém usa uma máscara nos relacionamentos sociais, imediatamente censuramos e julgamos essa pessoa como falsa e hipócrita, por não se mostrar aos olhos do mundo conforme realmente é.

Fui despertado para tais reflexões através de uma conversação que ouvi recentemente, onde uma amiga dialogava com outra, algo irritada: "Fulana é muito mascarada. Nunca sabemos quais são as suas reais intenções. Ela é muito perigosa e temos que ser cautelosas quanto a isso."

Não sei o porquê, mas aquele comentário fez nascer em mim uma espécie de inquietação íntima e não parei de pensar no assunto nas 2 horas que se seguiram, onde tudo o que eu julgava certo sobre o tema se me apresentava errado e vice-versa.

O primeiro questionamento que me veio à mente foi: "Existe alguém no mundo que não use máscaras e se mostre conforme realmente é em todas as ocasiões?"
Você se mostra como você é em sua casa para o seu chefe? Para os seus colegas de trabalho? Para o seu/sua namorado(a)? Durante uma importante entrevista de emprego?

E isso nos leva irremediavelmente a uma nova pergunta: "É válido nos mostrarmos como realmente somos em todas essas situações, patenteando perante todas as pessoas a nossa bagagem de conflitos, dificuldades e fraquezas?"

É oportuno, por exemplo, eu me mostrar ao meu superior hierárquico no ambiente de trabalho, pela obrigatoriedade da execução de uma nova tarefa, da mesma forma como me mostro à minha mãe quando não quero lavar as louças sujas no ambiente doméstico?
Essa demonstração corajosa de "ser sempre o que sou" agregaria algo nesse contato, favorecendo a convivência de ambos, ou traria mais inconvenientes do que benefícios?

E, dessa forma, após responder a mim mesmo todas as interrogações acima, eu cheguei à conclusão de que todos nós usamos máscaras. Inclusive eu. Todos os dias. É inevitável.
As máscaras ainda são uma necessidade emocional que possuímos e não podemos, por enquanto, descartar.

Elas são moldadas por nós de acordo com as diferentes necessidades e momentos nos quais nos encontramos, e adequadas, cada uma delas, a determinadas circunstâncias da vida.
Tal como uma vestimenta que usamos e que é correspondente aos tipos de compromissos e locais a que somos chamados a estar; mas que continua sendo apenas uma indumentária que nos cobre, e não nós mesmos.

Quem se mostra como realmente é durante uma paquera (indiscutivelmente o contato mais mascarado que existe), quando se quer conquistar outrem, demonstrando o que se tem de melhor?
O homem usa a máscara do rapaz bom, educado e atencioso, enquanto a mulher usa a da mocinha simpática, frágil e doce.
Por que haveria necessidade de cada um mostrar nesse momento todas as suas torpezas e fragilidades morais, quando daquele relacionamento poderá advir o amadurecimento do caráter de ambos através da experiência baseada no carinho e na ternura?

O problema não está nas máscaras, especialmente quando se tem plena consciência de que elas representam tão somente uma parte do que somos e não "o todo" de nós.
O risco está em se viver exclusivamente da máscara e, o que é pior, julgar-se ser a máscara, gerando uma perda na identidade e a mutilação de um pouco daquilo do que realmente se é.

Isso faria com que perdêssemos algo do que somos em essência, preocupados que estaríamos em sempre manter essa imagem temporária para os outros, fugindo de nós mesmos e receando o enfrentamento com a (nossa) realidade, mergulhados em um conflito onde a questão final seria: "Eu sou eu? Ou sou a máscara que uso?"

Essa análise guardaria certa analogia com a da mentira?
Quem nunca disse uma mentira?
Quem nunca mentiu para uma pessoa querida, omitindo algo, por saber que a verdade não seria suportada por ela naquele momento?
Quem nunca escondeu uma informação de alguém a quem ama, transferindo a divulgação para um momento apropriado, quando a pessoa estaria suficientemente fortalecida para digeri-la com serenidade?

Então seria a mentira, assim como a máscara, às vezes aplicável e útil, conquanto que não se viva da mentira e, o que seria ainda mais lamentável, não se minta ao ponto de considerar a mentira como uma verdade?

O homem ainda não tem a capacidade de isentar-se de todas as suas máscaras e se contemplar totalmente desnudo diante de si mesmo, quanto mais de colocar-se de forma equivalente perante os severos olhos do mundo. Não possuímos suficiente maturidade para tolerar semelhante exposição do nosso verdadeiro "eu" em caráter integral.

É como o mito bíblico de Adão e Eva no Paraíso: quando se viram totalmente nus, procuraram se cobrir e esconder-se.
E essas coberturas e esconderijos nada mais são do que as nossas personas do dia a dia, usadas até o momento em que não forem mais necessárias, consequência natural do nosso crescimento e da integração do que realmente somos com aquilo que projetamos.

Bruno Gomes
19/05/2011

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O BANQUETE DE PLATÃO

Um pouco de filosofia, pois filosofar é preciso...

"Pois não sei de bem maior que se pode proporcionar a alguém do que amá-lo virtuosamente, nem para um amante do que amar um objeto virtuoso.

Porque, de fato, o que deve orientar os homens que desejam viver uma vida feliz e honesta, isto não o são nem as linhagens, nem as honrarias, nem a riqueza.
Só o amor consegue dar isso.

Que coisa, pois, deve orientar os homens?
Julgo que às ações vis e desonestas se liga a desonra e às boas ações está ligado o amor.
Ouso até afirmar que se um homem ama e comete uma ação má, sofre muito mais com a reprovação da pessoa que ama do que com a que viesse de seu pai, de algum parente ou amigo.

O mesmo se dá com o que é amado.
Nunca um indivíduo se mostra mais confuso do que quando, por via de alguma falta sua, é surpreendido pela pessoa que ama.

De sorte que se fosse possível formar, de algum modo, um Estado ou um exército exclusivamente composto de amantes e amados, assim se obteria uma constituição política insuperável, pois ninguém faria o que fosse desonesto, e todos, naturalmente, se estimulariam para a prática das mais belas coisas.

Na luta, um desses exércitos, mesmo reduzido, obteria grandes vitórias sobre todos os inimigos, pois se um soldado às vezes suporta que os seus companheiros o vejam largar as armas e desertar, jamais desejaria que o seu amado o visse fugir, e a isso preferia a morte.

Além disso, ninguém é tão covarde que sucumba ao medo, fuja e não auxilie o seu amado, abandonando-o aos perigos!

Bela é a ação correta e boa; feia, é aquela incorreta e má.
O mesmo podemos estender ao amor, dizendo que nem todo Eros é em si mesmo belo e louvável, mas se torna belo e louvável unicamente quando nos encaminha para um amor que é igualmente belo e louvável.

Mau, com efeito, é o amante vulgar que prefere o corpo ao espírito, pois o seu amor não é duradouro por não se dirigir a um objeto que perdure.
A flor do corpo que ama vem um dia a murchar – e então ele "se retira ligeiro como as asas", esquecendo-se das declarações e muitas juras que fez.

O contrário, porém, acontece com aquele que ama uma bela alma e permanece a vida toda fiel a um objeto duradouro.

Quando o amante e o amado concordam em ter por lei, um, prestar ao amado todos os serviços que não firam a virtude, e o outro, servir em tudo o que não se oponha à justiça e a ajudá-lo a tornar-se sábio e bom, só então não é desonesto.
De outro modo, não!

Os deuses sancionam o esforço e a coragem nascidos do amor!
Se verdadeiramente os deuses sabem apreciar a força que nasce do amor, mais admiram e recompensam se é o que ama que se sacrifica pelo que é amado.

E a razão é esta: o que ama é, de certa maneira, mais divino que o objeto amado, pois possui em si a divindade.
É possuído por um deus.

Concluo, pois, que, de todos os deuses, o Amor é o mais antigo, o mais augusto de todos, o mais capaz de tornar o homem virtuoso e feliz durante a vida e após a morte."

Platão, 427-347 a.C. (O Banquete)

domingo, 24 de abril de 2011

ABANDONO DO MÉTODO

Não suportando não suportar alguma coisa
Não tolerando não tolerar
Contemplando o invisível
Tocando o intangível
Tornando finito o infinito
Vendo estrelas em lágrimas
Sorrindo de pesadelos
Sonhando só ao amanhecer
Santificando o pecado
Sofismando as verdades
Destruindo para reconstruir
Paradoxando a simplicidade
Desabrochando flores em pântanos
Transformando mínimos em máximos
Reconhecendo luz entre trevas
Crescendo na dor
Cortando as asas
Pousando para voar
Escravizando-me para libertar-me
Contando o todo na parte
Visualizando o inteiro no meio
Fazendo conhecidos todos os segredos
Amando o que não é amável
Acariciando o não afável
Desapegando o apego
Admitindo beleza na feiúra
Ironizando toda forma de futilidade
Descobrindo grandeza na humildade

Bruno Gomes
24/04/2011

sexta-feira, 15 de abril de 2011

ESPELHO, ESPELHO MEU

Espelho, espelho meu
Declaro diante de ti, amor incondicional
Àquele que vejo no teu reflexo
Pois ele, sou eu

Prometo, espelho meu
Saciar-me de mim mesmo
Até a última gota
Do mel que é meu, do néctar que sou eu

Pois, caro espelho meu
Quem deve amar-me e querer-me bem
Alegrar-me e completar-me
Senão esse que vejo em ti, que sou eu?

Se feio, bonito
Se chato, antipático
Se romântico, ingrato

Que importa, espelho meu?
Nego-me a ser infeliz
Pois esse, sou eu.

Bruno Gomes
15/04/2011

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

VOCÊ

Doce sorriso, quão belo és!
Contemplo-te em júbilo e encanto
Suave sorriso, quão magnífico és!
Pela eternidade eu o contemplaria em espanto

Por te evitar, sinto-te crescer
Por fugir, vem a me encontrar
Por me furtar, obriga-me a obedecer
Por te amar, leva-me a calar

Mas sorrio ainda por te ver sorrir
E choro mais por te ver chorar
Oro por querer tão bem a ti
Apesar de nunca vir a te tocar

E que dicotomia trágica!
Ser feliz e triste por te amar
Feliz por ver-te aproximar, mágica
Mas triste por ainda não poder te abraçar

Mas sorria para mim ainda uma vez
Para por um curto momento eu também sorrir
Para no raiar de mais um dia, um mês
Um sorriso no meu rosto ainda se abrir

E em prece peço a Deus
Para fazer você do meu peito sair
Mas Ele olha-me e em um breve adeus
A deixa dentro de mim ainda a sorrir

Mas que Deus malvado esse a me deixar sofrer
Tanto que O peço para de você me libertar
E o tempo passa, e você a crescer, a crescer
E eu aqui a chorar, a chorar

Mas como querer esquecer
Aquilo que não se quer que saia da mente?
Por que tem que ser tão confuso esse querer
Que tanto machuca e maltrata a gente?

Bruno Gomes.
12/03/2009

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A MENINA DA FOTO

Existem pessoas lindas, mas que saem feias em fotos.
Existem pessoas feias, que ficam super simpáticas nas fotos.
Existem aquelas que são feias em qualquer situação.
E existem outras que são bonitas pessoalmente, em fotos, quando acordam, carecas, desarrumadas, etc.

Essa história que vou contar é de uma amiga que pertence ao último grupo.

Não importa em que circunstância ela se encontre, você sempre a verá maravilhosa, perfeita.
Eu já a vi de toca na cabeça, com bobs no cabelo, de avental, mal-humorada, escovando os dentes, de cabeça pra baixo, chupando manga...
E ela sempre transpareceu beleza em todos os mais diferentes momentos.

É o tipo de menina que seria angel da Victoria's Secret fácil, fácil.

Só que ela tem um grande defeito.
Quando nosso grupo de amigos tira fotos juntos, e ela está por perto, ela sempre fica dizendo: "Puxa, como fiquei feia nessa foto. Olha pra isso, eu estou horrível!"

Sempre foi assim desde que a conhecemos.

E eu, após um tempo de observação, fazendo uma análise do assunto, percebi claramente a intenção da postura dela.
Ela sabe muito bem que ela nunca sai feia em uma foto.
E isso é impossível, afinal ela é estonteante.

Mas quando ela faz isso, na verdade ela quer que nós falemos: "Que nada, você está linda! Pára com isso, você é super fotogênica."

Dessa forma, em toda foto que tiramos juntos ela fala: "Puxa, olha pro meu cabelo como saiu desajeitado. Olha a minha barriga! Estou gorda!"
E tudo isso para nós, os amigos ingênuos, massagearmos o ego dela: "Que nada, você é super bonita! Olha só o seu sorriso. Você é muito fofa."

Ou seja, é um narcisismo mascarado de pseudo-humildade.

Mas essa semana eu resolvi fazer o caminho contrário.
O grupo se encontrou e tirou algumas fotos juntos.
Quando estávamos olhando, lá veio ela com o velho e conhecido script: "Deleta essa foto, por favor! Me tira dela. Estou horrível!"

E eu então respondi: "Mas não é que você está certa mesmo? Você está bizarra!"
Ela falou: "Hum...?"
E eu continuei: "É isso mesmo. Você está acabada. Estragou a foto da gente. Que saco!"
Ela escreveu, tentando consertar: "Esse Bruninho, ai ai (risos)!"
Eu segui em frente: "Que Bruninho, o quê? Não mude de assunto não. Resolveu ficar fazendo careta na foto agora, foi? Sorria que é melhor, talvez ajude."

Diante da risada geral da galera, ela falou: "Ó Bruninho, dois autos. Eu estava brincando, viu?"
Eu segui fulminante, sem dó nem piedade: "E o que eu tenho a ver com isso? Você estava brincando, mas eu não. A foto tinha tudo pra ficar perfeita, todos ficaram lindos. E você fica fazendo macacada? Fala sério! Não tire mais foto com a gente não."

Claro que depois eu conversei com ela, falei que era só uma brincadeira e expliquei que ela não necessitava ficar falando que saía feia em todas as fotos só para nos ouvir falar que ela era bonita.
Falei que ela não precisava disso, de incessantes elogios, pois ela era uma das meninas mais lindas que eu já tinha visto e que todos nós sabíamos disso.

Bastou eu dizer isso para ela voltar ao velho discurso, sorrindo e alisando as pontas dos cabelos: "Ah Bruninho, pára com isso! Nem é assim também, né? Você fala que me acha bonita porque é meu amigo e não quer me dizer a verdade: que eu sou feia."

Bruno Gomes
08/02/2011

domingo, 30 de janeiro de 2011

O MERGULHO

Canta ao meu ouvido a palavra eterna
Que me leva na direção luminosa das estrelas
Canta a suave melodia que liga o céu e a terra
E que me faz voar leve entre as borboletas

A sinfonia celestial soa e eu estremeço
As trombetas anunciam a marcha ascensional
O silêncio do deserto promoverá um novo recomeço
Pelas estradas áridas, por montanhas e lodaçal

As fileiras numerosas alinham-se pelo infinito
Bandeiras ao vento, prontas para atender ao clamor evolutivo
Em meio a elas, receoso e pequeno menino
Temeroso e expectante ante o mergulho repentino

A ordem vem do Alto, poderosa
Alvitra o cumprimento impostergável do dever
Caminho ansioso, acompanhando a palavra firme e zelosa
Menino inexperiente, convocado intimoratamente a vencer

Oh! A maré não mais me permite retornar
Descemos agora, penosamente de encontro ao desconhecido
Percebo tardiamente e com temor no olhar
Que estou despreparado e que tombarei inevitavelmente vencido

Com lágrimas nos olhos, tento relembrar o objetivo
Por que estou aqui, dolorosamente fora do ninho?
E a tarefa reaparece, como em Verbo Vivo
"Ama, meu filho! Ama e nunca estarás sozinho"

Ergue-se ao meu lado no auge da batalha
Com o seu grande estandarte, oh, poderoso general
Molda o meu espírito no calor da terrena fornalha
Reconheço-me fraco e impotente, apesar de Imortal

Por que subitamente me escolheste?
Por que tão firmemente confia em mim?
Quantas oportunidades já me ofereceste?
E quantas vezes já fali, em dor sem-fim?

"Ama! Ama ainda mais!"
"Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração"
Auxilia-me Senhor, a achar no amor o porto, o cais
Para os meus sentimentos desencontrados em turbilhão

"O que temes tanto, meu filho?"
"Por que tanta aflição e tanta dor?"
"O meu jugo é suave e leve é o meu fardo"
"Guardai os meus mandamentos e vos darei um outro Consolador"

Pareço agora dormir
Em um mundo ingrato e que me assusta em aluvião
Com novos olhos materiais começo a sentir
O doce ninar vindo das Suas mãos

Pronto para ser o sal da terra
Deixo para trás o menino frágil e moribundo
Ajuda-me a esquecer a tristeza que agora se encerra
E a aprender de Ti que venceu o mundo

Bruno Gomes.
30/11/2008

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

MEU PEQUENO JUMENTINHO

Louvado seja, ó meu pequeno jumentinho
Refúgio divino, transbordante de crua vitalidade
Armadura de carne em minha queda do ninho
Abriga-me doravante até a anelada liberdade

Mergulho em ti em um exílio terrestre
Ossos e sangue, vísceras e fluidos materiais
Ferramentas minhas arando por solo agreste
Ansioso por navegar em águas claras e lustrais

Eis instrumento de santos e imperadores cruéis
Dos que anseiam a vida ou cantam pela morte
Eis mais belo e valioso que os efêmeros ouropéis
Jornadeias comigo não questionando por qual norte

Branco vaso orgânico, ponte viva da sublimação
Transmissor da dor em vínculo com o prazer
Casca da minh’alma, purificador em bênção
Fonte de tórridos quereres, gozo e saber

Vivo em ti, mas não por tua sorte
Ages sobre mim por veias em desejos infinitos
Segrega-me em músculos qual lustroso pote
Pareces não sentir o pulsar do meu espírito

Amaldiçoas maldosamente a minha castidade
Entorpecendo-me profundamente em sensação
Grosso véu sobre minha espiritual faculdade
Ludibriando-me no labirinto da torpe ilusão

Respiras e vibras incessantemente
Tens constante fome, sede e sono
Sentes frio e calor inclemente
Necessidades animais, instintos selvagens e engano

Mas nada disso, eu sei, é culpa sua
Grandemente ingrato e orgulhoso que sou
Perdoa-me em minha pulcritude impura
Santo albergue, a minha gratidão te dou

Triste é o seu destino final entre os vermes
Trono de pele coberto por cicatrizes e suor
Até o dia em que jazerá cansado e inerme
Liberando-me flutuante e coberto em pó

Mas louvado ainda seja, ó precioso jumentinho
Por sobre o teu forte tronco eu poder cavalgar
E após eu deixar o mundo pobre e mesquinho
Em flores perfumadas irás se transformar

Bruno Gomes.
04/12/2008

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

ALVITRES OPORTUNOS

Quando amigos e aqueles a quem amas te disserem
Que aparentemente já morrestes para o mundo
Por não se malcomunar com os seus vícios e equívocos
E por possuir um comportamento com o qual não sintonizam
Relembre da impostergável e efetiva necessidade de morrer
Para renascer para outras prioridades positivas na tua existência

E quando de sarcasmo e ridículo te cobrirem
Por se negar a ser cúmplice na conduta extravagante
Tentando cativar o amor e a afeição em outrem
Para depois virar-lhe dolorosamente as costas
Em atitude imatura, irresponsável e covarde
Recorde que o maior Amor já existente na Terra
Foi igualmente alvo de profunda ironia e constante zombaria

Os que em vida tentam disciplinar-se, aprender e amar
Sempre serão atingidos pelos sentimentos desencontrados
Daqueles que, à semelhança de ti mesmo no passado recente
Ora se comprazem na alegria ruidosa e excêntrica
Exclusivamente baseada em demonstrações e atos exteriores
Em detrimento do real júbilo íntimo, invisível aos olhos de todos

Sê então discreto na tua paz e não te defendas
Enfrenta com naturalidade esses petardos que te lançam
Com a alegria daquele que é feliz ao ser submetido ao teste
Que prova que o ensinamento foi finalmente interiorizado
E que ora se exterioriza em forma de serenidade e equilíbrio
Que nem mesmo as poderosas e furiosas tormentas
Podem abalar e afetar negativamente

Os indivíduos que consideram ter alcançado a paz
Para isolar-se egoisticamente do mundo evitando contaminar-se
Demonstram que longe estão da solidificação do aprendizado
Que estabelece que aqueles que desenvolveram o amor
Dentro de si mesmos como fonte viva e luminosa
Devem usá-lo para influenciar positivamente o ambiente no qual se encontram
Como a prova maior da excelência do ideal abraçado

Portanto, não te inquietes com os julgamentos de toda ordem
E com a carência injustificável que julgas ferir teu sentimento
Sê você aquele que ama, mesmo não amado
Aquele que compreende, mesmo não compreendido

Pois os que permanecem inquietos na retaguarda
Aguardam ansiosos quem os ame e compreenda
No caminho de momentânea ignorância em que se encontram
Através do qual você mesmo já trilhou oportunamente

Olhe-os como irmãos mais novos
Cujo crescimento chegará no momento apropriado
E faz o que está dentro dos seus limites para ajudá-los
Da mesma forma que houve mãos amigas, fraternas e carinhosas
Que te ergueram quando estavas na mesma aflitiva situação
Oferecendo a eles o que, quando mais necessitavas, recebestes

Bruno Gomes.
15/06/2010

domingo, 2 de janeiro de 2011

CORTE AMERICANO

Eu sempre cortei o meu cabelo em uma antiga barbearia que tem aqui perto de casa.
É um lugar relativamente simples, sem maiores atrativos, com sua totalidade de clientes formada por pessoas do sexo masculino.
Não vá até lá pensando em fazer a unha, dar escova, luzes ou outras coisas do gênero: lá ou você corta o cabelo ou faz a barba.

Já faz vários anos que eu vou, a cada 15 dias, nessa barbearia.
As pessoas acham um exagero eu cortar o cabelo de 2 em 2 semanas; mas quem tem cabelo ruim é assim mesmo.
Começou a dar problemas para pentear, tem que cortar logo.
Quem é feio tem que ser vaidoso, não tem jeito.

Bem, agora no final do ano eu tive um encontro especial.
E como era de se esperar, eu tinha que estar bonito.
Na primeira oportunidade eu separaria uma hora na minha agenda para cortar o cabelo na velha barbearia.
Afinal aquele seria, como disse, um encontro especial.

Mas, não sei por qual motivo, chegou o dia de sair e eu ainda não o tinha cortado.
O pior é que já tinha se passado 20 dias desde que eu o havia cortado pela última vez, ou seja, o prazo de validade dele estava vencido há 5 dias.
Todavia, como eu ainda tinha a tarde toda para fazer isso, não me preocupei.

Entretanto, o problema que acabaria com meus planos ainda estava por vir: a pessoa do encontro especial me ligou no meio da manhã perguntando se eu poderia sair mais cedo à tarde, por causa de uma pequena mudança nos seus compromissos.
Dessa forma, eu não teria mais tempo de passar na barbearia.

Envolvido nesse conflito, ao sair do trabalho para almoçar, eu vi um desses centros de estética super chiques, onde mulheres ricas e elegantes geralmente freqüentam.
Eu logo pensei: "Bem, essa é a minha única alternativa. Terei que cortar o cabelo ali mesmo."

Quando entrei, eu percebi imediatamente as imensas diferenças daquele lugar em comparação a pequena barbearia onde eu costumava ir: o lugar só tinha clientes mulheres.
Eu fiquei até constrangido ao entrar.

Falei com a menina da recepção (sim, tinha recepcionista e tudo) que desejava cortar o cabelo rapidinho.
Ela me olhou e disse: "Você agendou horário?"
Eu respondi surpreso: "E tem que agendar horário? Eu não sabia."
Na barbearia era só chegar e pronto.

Eu expliquei a ela a minha urgência e que realmente precisava cortar o cabelo.
Ela foi até o interior do local e voltou dizendo que eu seria atendido em alguns minutos.
Eu tinha certeza que ia ser caríssimo cortar o cabelo naquele ambiente extravagante.
Mas como eu não tinha outra opção, tive que ficar.

De repente, chegou um rapaz e falou: "Bruno Gomes, pode entrar."
Eu pensei comigo mesmo: "Nossa, aqui chama até pelo nome. Parece consultório médico!"

Então eu sentei e ele perguntou: "Como você quer que eu corte o seu cabelo?"
Como eu estava com pressa, eu respondi: "Passa a máquina."
Ele me olhou com uma expressão curiosa e disse: "Ah. Eu não quero passar a máquina no seu cabelo não."

Eu fiquei espantado. Era só o que me faltava. Que absurdo!
Eu super atrasado para o encontro especial e o cara ainda não queria passar a máquina no meu cabelo.
Na barbearia eu falava como queria e não era questionado.

Então eu o expliquei tranqüilamente: "É que estou muito atrasado e preciso que seja algo rápido. Passa a máquina mesmo."
Ele me olhou e respondeu: "Mas passar a máquina você passa em qualquer lugar. Aqui não."
E após pensar, ele concluiu: "Por que você não faz um corte americano?"

Eu nunca tinha ouvido falar disso na minha vida.
Eu respirei fundo e o perguntei contrafeito: "O que é isso?"
Ele disse: "Você vai ver", e começou a cortar.

Sinceramente, confesso que não me preocupei muito com o que ele estava fazendo, afinal o que eu queria era cortar o cabelo o mais rápido possível.
Mas foi justamente isso o que começou a me incomodar: ele estava demorando muito!
Ele cortava uma mecha do meu cabelo e ficava com a mão no queixo olhando e pensando.
Cortava outra e reflexionava, observando o que tinha feito.

Eu pensava comigo mesmo: "Meu Deus, eu não vou sair daqui hoje."
Assim, eu comecei a olhar o horário no meu celular toda hora, de modo a fazê-lo perceber que eu realmente estava com pressa.
Ele reparou, falou que já estava acabando e me virou para o lado da TV, na esperança de entreter a minha atenção com outra coisa.

Finalmente, depois de 45 minutos, ele acabou e me virou para o espelho.
Quando eu me olhei, tomei um susto que quase cai da cadeira: eu estava de topete!
Que bizarro! Eu nunca tinha me visto daquela maneira; parecia que eu estava diante de outra pessoa!
Era um topete virado para o lado...

Ele sorriu e me perguntou: "E ai, gostou?"
Eu não sabia o que responder, pois apesar de não ter gostado do corte, eu não queria constrangê-lo.

Então ele insistiu: "Não gostou não foi?"
Eu disse: "Veja bem", e tentei falar calmamente: "É que eu nunca tinha me visto de topete antes", e fiquei apalpando aquele bolo de cabelo na frente da minha cabeça.

Para dar um toque de humor a situação desagradável, eu falei sorrindo: "Não tem um corte brasileiro não?"
"Mas essa é a nova moda!", ele informou.
"Entendi", respondi, "É que eu sou um pouco mais conservador e tradicional, entende?"

Foi só aí que fui entender o motivo daquilo se chamar corte americano: com aquele topete eu estava parecendo com o Elvis Presley.

Ele continuou: "Mas do que foi que você não gostou especificamente."
Eu respondi quase com vergonha: "Do topete mesmo..."
Ele ainda assim redarguiu: "Mas corte americano é assim!"
Então eu tentei falar a língua dele, não sei se acertei: "É que eu acho que o formato do meu rosto não combina muito bem com topete."

É claro que ele tirou o topete. Eu nunca sairia na rua com aquilo na cabeça.
Mas foram os R$ 30,00 mais mal dados de toda a minha vida.
Depois desse dia, nunca valorizei tanto a velha e simples barbearia aqui perto de casa.

Bruno Gomes.
02/01/2011