sábado, 6 de fevereiro de 2010

O DESERTO E A BORBOLETA



O deserto anelado dos iniciados e santos
O silêncio sobre o ondulado mar de areias infinitas
Solidão que faz ouvir dos ventos os ecos e cantos
Que das dunas alvas dança e se agita

O vozerio do mundo inquieto emudece-se por instantes
Que desdobra-se paulatinamente por longos dias e noites
Visão contínua do solo branco, maçante
Cujos claros grãos beijam-me em doce açoite

Perco-me e flutuo leve em suas crestadas areias
Mergulho nas ignotas profundezas do seu ser
Sob o calor das dunas, levita e passeia
Em luz, a alvorada, o anoitecer

Uma borboleta, então, me aparece neste ambiente
Suas asas contrastam com o território de cor homogênea
Seu colorido não secará nas areias de calor ardente
Nem se apagará a sua figura luminosa e argêntea

Vai-te daqui, borboleta
Meu jardim seca árido, sem néctar para te alimentar
Deixa-me apenas a lembrança do colorido das suas asas
E parte ao vento sul que guiar-te-á para o mar

Mas eu sei quão suave são seus braços
E como anelaria por sobre os Dela adormecer
Mas trovões e tempestades, ventanias e brados
Poderiam advir desse efêmero amanhecer

Mas para quê esse semblante soturno?
Vim trazer-te água fresca para o teu jardim florescer
Meu colorido te servirá de constante insumo
E de sede você jamais irá perecer

Bruno Gomes.
04/02/2010

sábado, 31 de outubro de 2009

A VENERANDA JOANNA DE ÂNGELIS



Princesa espiritual das terras do Sul
Brilhava solene à luz do sol
Com a sua presença iluminada qual o céu azul
Cintila estrela de escol (****)

Manto alvo e branco sobre sua testa
Ouro em pó no cabelo dela
Qual flor que desabrocha dourada na floresta
Joanna, a mais bela

Junto às quedas, Ângelis
Pés descalços na água clara e fria
Canta sua voz de prata lá no céu
Rebrilhando do Alto ela descia

Um imperador déspota em Roma outrora houvera
Senhor de terra e planta
Joanna flutuou do fogo à glória calma e plácida
Em prova divina de amor que encanta (*)

Heroicamente perante soldado e lança se ergueu
Vontade rígida e inabalável de servidora sábia e dedicada (***)
Do amado modelo, o celeste Mestre seu
Das ardentes chamas romanas voou delicada (*)

Firme e determinada qual montanha, sob o escudo do ideal
Olhos amáveis e triunfantes, transbordantes de amor
Exteriorizando paz e piedade em mão maternal
As labaredas inflamantes da hipocrisia não a causam dor (*)

Dança pura e leve qual pluma e pétala na primavera
Alva pena, folha verde, grão de areia e orvalho
Perante ignorância e indiferença não se abate
Anda por caminhos áridos e não vê atalhos

Palavra que encoraja a tirar do Espírito o limo
Trás claridade aos cegos e música aos surdos
De admiráveis versos plantados no Novo Mundo (**)
À mágica odisséia no Além-Túmulo (****)

Raro diamante espiritual
Lapidada pelo calor de antigo império (*)
Fronte religiosa aureolada
Majestosa em seu sagrado ministério

Cavalga vívida sobre os ventos do Evangelho
Teu semblante resplandece coroado em raios de luz
Pacificado sobre o teu afável colo agora renasço
Joanna, angélica obreira de Jesus

Fervorosa cristã, não obstante obstáculos à sua frente
Em sombras palpitantes de um dia
Grandiosamente fortalecida na fé Daquele
Que um dia cantou ao seu ouvido doces melodias

Sussurrando suaves bênçãos sempre está
Qual maré espumosa e ondas arfantes do mar
A sua beleza que maravilha; a moral que intimida
Joanna para sempre em minha mente vagará

Mulher integral, mensageira angelical do Além
Missão de renovação, o Consolador, posta em ação (****)
Arauta fiel, marcha sob a bandeira da verdade e do bem
Encontra estradas tortuosas até o meu coração

Vem pois, Veneranda Joanna
Amparar-me em meu tormento
E sob os trovões e tempestades do caminho terrestre
Da minha boca não sairá um só lamento

Bruno Gomes.

- Referências às reencarnações da Veneranda como:

(*) Joana de Cusa, século I, queimada viva ao lado de cristãos em Roma.
(**) Sóror Juana Inês de la Cruz, religiosa e poetisa, no México (1651-1695).
(***) Sóror Joana Angélica de Jesus, religiosa e mártir da Independência do Brasil, em Salvador-BA (1761-1822).
(****) Joanna de Ângelis, benfeitora espiritual.