quarta-feira, 29 de maio de 2013

O MARTÍRIO DE IGNÁCIO

Ano 98 do calendário cristão. Aquele fora um ano difícil para os adeptos da Boa Nova. Desde o governo do Imperador Nero que o cerco aos cristãos havia recrudescido. Vítimas da calúnia, foram injustamente responsabilizados pelo grande incêndio em Roma no ano de 64. Perseguições contínuas, dores inenarráveis conduziam inúmeros adeptos da doutrina de Jesus ao sacrifício no Circo Máximo. Em todos os lugares se ouviam as sinistras sentenças de ordem:
- Queimem os cristãos!
- Joguem os cristãos às feras!

Entre os inúmeros apóstolos do Cristo que vivenciaram tais eventos, havia um de nome Ignácio. Ignácio de Antioquia. Tendo sido criado na Galiléia, ele e a sua família seguiam, encantados, os passos de um jovem carpinteiro nazareno que realizava inumeráveis milagres naquela região. Compareciam às suas pregações à beira do lago em Cafarnaum e enchiam-se de celestes esperanças através das palavras Dele: "Bem aventurados os que choram, porque serão consolados! Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia! Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus!"

Certo dia, ainda pequenino, Ignácio ouviu da sua mãe: "Vai Ignácio! Vai até Jesus para que Ele imponha as mãos sobre a sua fronte e o abençoe!"
Curioso, Ignácio juntou os seus amigos e aproximou-se do Mestre. Os discípulos, preocupados com a multidão que se adensava para vê-Lo, os afastaram com severidade. Mas Jesus, com a sua infinita bondade e ternura, reprimiu os discípulos e disse: "Deixai vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos céus é para aqueles que se lhes assemelham", e acolheu com alegria o pequeno grupo. 

Muitos anos haviam se passado desde aqueles tempos de júbilo. Jesus já havia sido crucificado em Jerusalém e os seus seguidores estavam dispersos na imensa tarefa de pregação evangélica: Pedro, Mateus, João, Paulo... E entre eles estava agora Ignácio, adulto e bem disposto, levando a palavra do Messias a todos os sofredores. No seu coração, nunca esquecera aquele gesto carinhoso de Jesus olhando nos seus olhos e nos de seus amigos, os colocando no colo e os abençoando. E fortalecido nessa lembrança, dedicou integralmente a sua existência ao filho de Deus. Consolava as viúvas, cuidava dos enfermos, secava as lágrimas dos arrependidos, indicando-lhes um novo caminho, orientava as crianças.

Já em idade avançada, mas robusto na fé que o abrasava, Ignácio permanecia, a pedido de João, o Evangelista, organizando as atividades de pequeno agrupamento cristão em cidade próxima algumas léguas de Roma, levantando o ânimo dos adeptos perseguidos. Sempre os lembrava: "Irmãos! Se o próprio Mestre foi levado ao sacrifício pelo seu amor às criaturas, não devemos nós, meros discípulos imperfeitos, esperar privilégios na luta pela implantação do Reino de Deus na Terra. Dessa forma, permaneçamos fiéis até o fim!"

Foi envolto nessas expectativas que, ao entardecer de certo dia, uma escolta armada a mando de César invadiu o local onde os cristãos, dirigidos por Ignácio, se reuniam para as preces diárias. Ignácio presidia a reunião daquela noite, quando o arrogante soldado interrompeu o seu discurso: "A mando de César, todos os seguidores do falso profeta galileu serão levados ao cárcere, para posterior morte na arena! Retirem todos desse local de sortilégios!"

Ignácio, sereno e sem reagir, acalmou o ânimo dos mais frágeis, elevou o pensamento ao alto e, confiante, entregou-se a Jesus. Havia se preparado para aquele momento durante toda a sua vida. Por vários dias ficaram em uma cela úmida e fétida. Mas Ignácio nunca cessava a palavra de encorajamento e de fé, narrando as inesquecíveis histórias dos mártires do passado. 

Em uma determinada tarde, as celas foram finalmente abertas e, acorrentados uns aos outros por pesadas correntes, eles foram levados para as ruas movimentadas de Roma. Após tanto tempo nos calabouços subterrâneos, o sol incomodava-lhes os olhos. Ignácio, a frente da comitiva, contemplava Roma, a cidade dos Césares, pela primeira vez. Palácios belos, praças compostas de valioso mármore, estátuas de ouro dedicadas aos deuses do panteão romano cintilavam à luz do crepúsculo. Construções enormes talhadas em pedra bruta, baseada em avançada arquitetura, embelezavam aquela cidade que, à época, era o Centro do mundo.

De repente, Ignácio, para a surpresa de todos, começou a sorrir. Mesmo os seus companheiros não entendiam aquela sua atitude inesperada. Um dos guardas pretorianos, vendo semelhante ato, golpeou o venerando apóstolo da caridade na face, dizendo: "Miserável! Marcha para a morte, que encontrará nos postes de fogo, nas caldeiras ferventes ou nos dentes afiados dos leões africanos! E ainda assim você sorri da sua situação e desse magote de miseráveis que o acompanham?"

"Sim, jovem. Sorrio do imenso paradoxo que contemplo diante dos meus olhos!"

Aplicando um novo golpe na face, o soldado redargüiu: "Sois louco, assim como toda essa massa ignorante, seguidora de um carpinteiro medíocre que encontrou a morte vergonhosa na cruz entre dois ladrões!"

Ao que Ignácio sorriu e respondeu: "Enganas-te, jovem soldado. Sorrio sim, ébrio de alegria. Contemplo a sua majestosa cidade com toda a sua glória, riqueza e pompa. Moedas e objetos valiosos movimentam-se pelos lugares mais belos que os meus olhos terrenos jamais poderiam ver. E ao perceber isso, pergunto-me: Se Deus, em sua superior bondade e justiça, deu semelhantes coisas a vocês que são criminosos, assassinos, corruptos e dilaceradores de vidas sem conta... O que Ele não reservará para nós que dedicamos toda uma vida por amor a Ele?!"

O soldado, estupefato, não soube responder tão lúcida elucidação. Mas não havia mais tempo para maiores incursões filosóficas. As portas do Circo Máximo foram abertas para a entrada do simples e humilde grupo dedicado ao Messias. O grandioso estádio estava completamente lotado por pessoas com a consciência anestesiada nas paixões. 

Diante do barulho ensurdecedor, Ignácio olhou com ternura para os seus amigos: mulheres, crianças, jovens rapazes, idosos. Buscando inspiração no Alto, lhes disse: "Eis irmãos, o dia do nosso glorioso testemunho por Jesus, a quem amamos. Nada temam! A morte não é o fim da vida, mas a porta que se abre para um mundo estuante que nos espera logo mais! Lembremos da frase do Cristo, quando Ele nos disse no Sermão da Montanha: Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de Mim. Alegrai-vos e exultai, porque grande será a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós."

Ajoelhados e de olhos fitos no alto, não perceberam eles que Espíritos iluminados desciam de altas esferas de luz, os envolvendo em serenidade e coragem para o último ato de fé. Os leões famintos e outras feras selvagens foram soltas para devorarem os seus corpos frágeis. Mas suave e doce torpor os envolvia, enquanto eram libertados da matéria por mãos claras e alvinitentes. Rostos acolhedores e sorrisos simpáticos os recebiam no mundo espiritual. 

E entre eles, aureolado de luz, com olhos claros como duas estrelas, estava Jesus, exatamente como nas suas pregações à beira do lago na já longínqua Galiléia. De braços abertos recebeu-os a todos e, contemplando Ignácio, falou com indefinível entonação: "Vinde, irmão. Vinde ao Reino que meu Pai preparou para os apóstolos da Nova Fé! Pois ele só é acessível àqueles que possuem o coração puro... puro como o de uma criança."

Bruno Gomes.
29/10/2012