quinta-feira, 26 de julho de 2012

CURVAR-SE

Johann era um homem profundamente dedicado a Deus. Desde a sua juventude sentiu-se atraido à leitura das Velhas Escrituras, sobre a narrativa da saga do sofrido povo "escolhido" por Jeovah, que vencera dois grandes períodos de dolorosa escravidão, na Babilônia, no Egito. Fascinara-se pela sublime energia com a qual Moisés conseguira impor a sua vontade sobre um povo indisciplinado e supersticioso durante 40 anos de peregrinação no deserto em direção à Terra Prometida. De caráter apaixonado e idealista, Johann decidiu-se então por entregar-se totalmente ao estudo das Páginas Sagradas, aprofundando-se na história dos profetas e do povo hebreu.

Esteve absorto por longas noites em bibliotecas inacessíveis ao vulgo, onde tinha largo acesso a livros antigos, papiros esquecidos e valiosos, os quais lia sempre com verdadeiro entusiasmo. Após a sua ordenação, durante décadas dedicou-se ao serviço do Senhor, cumprindo rigorosamente todas as regras e ritos cerimoniais estabelecidos nos mínimos detalhes. Tudo que o homem podia dar a Deus era pouco na sua concepção. Com o passar do tempo, isto o levou a estar constantemente atento à conduta daqueles que, em sua opinião, não tinham a mesma capacidade de raciocínio e a inteligência necessária à análise das ordenações divinas. Dessa forma, quando os surpreendia em alguma atitude menos feliz, recriminava-os com severidade, fazendo-se ouvir por longos minutos sobre a forma como todos deveriam se comportar, irrestritamente de acordo com a sua interpretação da vontade de Deus.

Sentia-se um missionário, com a elevada tarefa de salvar almas. Desse modo, deveria estabelecer normas de conduta rígidas para aqueles que, como ele, desejavam ver a face de Deus um dia. Sendo um profundo conhecedor da doutrina que se filiava, todos que o cercavam deveriam curvar-se as suas opiniões, que não permitia contrariações, provindas do seu verbo fácil e embasado fielmente à teoria que o abrasava. E assim, fez-se respeitado pelo seu vasto conhecimento, muito embora não amado por aqueles sobre os ombros dos quais fazia pesar dolorosamente o suposto "desejo" do Senhor. Admirado pela postura externa de fiel e irrepreensível devoto, tornara-se antipático e arrogante pela maneira autoritária e impiedosa com a qual conduzia os seus pupilos. Onde chegava, a sua presença desagradável de homem invariavelmente crítico e prepotente sempre gerava um mal-estar geral perceptível por todos.

Todavia, com o passar do tempo, Johann começou a sentir-se perturbado. Do alto do púlpito, após realizar suas prédicas costumeiras e repetitivas, via todos os fiéis genuflexos, curvados em atitude oracional. Naturalmente aquilo muito o satisfazia; mas aquele povo, na sua maioria composto de gente simples e pobre da região, saia extasiado após orar juntos de joelhos, sentindo-se profundamente tocados pelas energias espirituais que pairavam no ambiente nesses momentos. Johann observava todos àqueles que o obedeciam sem questioná-lo saírem do templo felizes após terem se curvado humildemente diante do altar, de onde pediam aos céus a força e a resignação indispensáveis para suportarem as suas provas, enquanto ele, não obstante os constantes diálogos com filósofos e doutores, príncipes e pensadores célebres, não sentia essa sutil e íntima comunhão com o Pai Celestial.

Aquelas observações agora, confessava, causavam-lhe um grande impacto. Johann começou a perguntar-se porque nunca se sentia efetivamente pleno. Não entregara toda a sua vida a Deus, com total abdicação de tudo? Não catequizava as pessoas, fazendo-as ver o erro das suas crenças e aceitar a fé conforme a ortodoxia reinante? Nunca permitira abalar-se nas suas convicções firmes e no seu ânimo inquebrantável. Mas, ainda assim, via-se constantemente presa de conflitos, inquietações e ansiedades que procurava diluir com maior dose de disciplina no fiel desempenho da sua tarefa de vigilante servidor de Deus na Terra. Não era ele, portanto, digno que contemplar o Criador? Quem melhor que ele poderia compreender a magnitude divina?

Foi envolvido nessas conjunturas que resolveu visitar o altar do templo a ele confiado desde muitos anos e meditar. Lá chegando, porém, surpreendeu-se com a figura de um mendigo que, curvado sobre o chão empoeirado, orava com fervor. De olhos fitos no alto e de mãos postas, o peregrino da miséria parecia imerso em um oceano de puras e angélicas emoções. A imagem de fé que tinha diante dos olhos era tamanha que Johann sentiu-se diminuir na sua altivez. Do alto da sua autoridade, admitia que nunca se exporia a prostrar-se no solo daquela maneira, diante de todos, para entregar-se a prece. Mas aquele ser que tinha diante de si, aparentemente ignorante, parecia tocado por algo que, agora, reconhecia nunca ter experimentado em sua longa existência.

Ao erguer-se, na sua indigência, o andarilho tinha os olhos brilhantes e um contagiante sorriso no rosto enrugado pelo tempo. Cativado pela ocorrência inusitada, Johann rendeu-se e falou, algo melancólico: "Muitas vezes, em minhas reflexões, me pergunto por que Deus não se dirige a nós, como fazia em tempos passados, conforme lemos nas Sagradas Escrituras. Ninguém hoje em dia vê Deus, quando na antiguidade Ele aparecia às pessoas com tanta freqüência e por diversas maneiras, provando a Sua existência. Por vezes sinto que Ele abandonou os seus filhos."
Ao que o estranho respondeu: "Senhor, permita-me dizer que Deus jamais esqueceu os seus filhos e, ademais, nunca deixou de fazer-se perceptível a todos os homens. O grande problema é que, hoje em dia, e ao contrário do passado, já não existem muitas pessoas capazes de curvar-se o bastante para percebê-Lo."

Bruno Gomes.
26/07/2012

* Inspirado em uma passagem do livro "O Homem e seus Símbolos" de Carl Gustav Jung.

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