sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O ORADOR GAGO

Lamenais foi uma figura célebre em sua época. Exímio orador em Roma, magnetizava as multidões com o seu verbo fácil e eloqüente. Suas palavras encantavam e fluíam quais melodias orquestrais, fazendo com que os seus concorridos discursos fossem momentos de grande enlevo intelectual e emocional. Os firmes argumentos que utilizava nas suas robustas defesas arrebatavam, tornando impossível qualquer réplica.

Todavia, fato curioso: as suas memoráveis palestras nunca eram feitas por ele, mas por alguns dos seus alunos mais experientes. E o motivo é que Lamenais, apesar da sua grande capacidade retórica, era gago. Quando jovem, ainda insistira em subir ao púlpito para falar ao público, estimulado pelos pais. Mas as sílabas travavam, a dicção não acompanhava a rapidez do seu raciocínio, sendo vítima da chacota dos ouvintes.

Tais eventos o causavam penoso constrangimento, qual punhal invisível que lhe fosse cravado dolorosamente no peito, gerando grande tristeza e frustração. Como não lograra êxito na busca da cura através dos médicos e terapias da época, recolheu-se, limitando-se a escrever suas teses, que eram defendidas por outros, não desejando mais expor-se.

Foi nesta época que resolvera fundar uma pequena escola de oradores que em pouco tempo tornou-se famosa, atraindo jovens alunos de toda a região, alguns dos quais tornaram-se conhecidos discípulos seus. Os seus opositores queixavam-se, desejando o fechamento da escola. Afirmavam ser impossível um homem gago formar oradores. Era como, diziam, um velho coxo formar poderosos guerreiros.

E foi sob essas acusações que Lamenais foi chamado a se defender publicamente. Ao contrário das suas longas dissertações, ele enviou por um dos seus orientandos um pequeno bilhete, que ao ser lido pelo jovem, dizia: "Sim, um homem gago pode formar grandes oradores. Pois ele é como a rocha phretah, encontrada nas praias do Mediterrâneo: nada corta, mas afia a lâmina das espadas para as batalhas."

Bruno Gomes
30/08/2012

* Inspirado na vida de Demóstenes.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

CURVAR-SE

Johann era um homem profundamente dedicado a Deus. Desde a sua juventude sentiu-se atraido à leitura das Velhas Escrituras, sobre a narrativa da saga do sofrido povo "escolhido" por Jeovah, que vencera dois grandes períodos de dolorosa escravidão, na Babilônia, no Egito. Fascinara-se pela sublime energia com a qual Moisés conseguira impor a sua vontade sobre um povo indisciplinado e supersticioso durante 40 anos de peregrinação no deserto em direção à Terra Prometida. De caráter apaixonado e idealista, Johann decidiu-se então por entregar-se totalmente ao estudo das Páginas Sagradas, aprofundando-se na história dos profetas e do povo hebreu.

Esteve absorto por longas noites em bibliotecas inacessíveis ao vulgo, onde tinha largo acesso a livros antigos, papiros esquecidos e valiosos, os quais lia sempre com verdadeiro entusiasmo. Após a sua ordenação, durante décadas dedicou-se ao serviço do Senhor, cumprindo rigorosamente todas as regras e ritos cerimoniais estabelecidos nos mínimos detalhes. Tudo que o homem podia dar a Deus era pouco na sua concepção. Com o passar do tempo, isto o levou a estar constantemente atento à conduta daqueles que, em sua opinião, não tinham a mesma capacidade de raciocínio e a inteligência necessária à análise das ordenações divinas. Dessa forma, quando os surpreendia em alguma atitude menos feliz, recriminava-os com severidade, fazendo-se ouvir por longos minutos sobre a forma como todos deveriam se comportar, irrestritamente de acordo com a sua interpretação da vontade de Deus.

Sentia-se um missionário, com a elevada tarefa de salvar almas. Desse modo, deveria estabelecer normas de conduta rígidas para aqueles que, como ele, desejavam ver a face de Deus um dia. Sendo um profundo conhecedor da doutrina que se filiava, todos que o cercavam deveriam curvar-se as suas opiniões, que não permitia contrariações, provindas do seu verbo fácil e embasado fielmente à teoria que o abrasava. E assim, fez-se respeitado pelo seu vasto conhecimento, muito embora não amado por aqueles sobre os ombros dos quais fazia pesar dolorosamente o suposto "desejo" do Senhor. Admirado pela postura externa de fiel e irrepreensível devoto, tornara-se antipático e arrogante pela maneira autoritária e impiedosa com a qual conduzia os seus pupilos. Onde chegava, a sua presença desagradável de homem invariavelmente crítico e prepotente sempre gerava um mal-estar geral perceptível por todos.

Todavia, com o passar do tempo, Johann começou a sentir-se perturbado. Do alto do púlpito, após realizar suas prédicas costumeiras e repetitivas, via todos os fiéis genuflexos, curvados em atitude oracional. Naturalmente aquilo muito o satisfazia; mas aquele povo, na sua maioria composto de gente simples e pobre da região, saia extasiado após orar juntos de joelhos, sentindo-se profundamente tocados pelas energias espirituais que pairavam no ambiente nesses momentos. Johann observava todos àqueles que o obedeciam sem questioná-lo saírem do templo felizes após terem se curvado humildemente diante do altar, de onde pediam aos céus a força e a resignação indispensáveis para suportarem as suas provas, enquanto ele, não obstante os constantes diálogos com filósofos e doutores, príncipes e pensadores célebres, não sentia essa sutil e íntima comunhão com o Pai Celestial.

Aquelas observações agora, confessava, causavam-lhe um grande impacto. Johann começou a perguntar-se porque nunca se sentia efetivamente pleno. Não entregara toda a sua vida a Deus, com total abdicação de tudo? Não catequizava as pessoas, fazendo-as ver o erro das suas crenças e aceitar a fé conforme a ortodoxia reinante? Nunca permitira abalar-se nas suas convicções firmes e no seu ânimo inquebrantável. Mas, ainda assim, via-se constantemente presa de conflitos, inquietações e ansiedades que procurava diluir com maior dose de disciplina no fiel desempenho da sua tarefa de vigilante servidor de Deus na Terra. Não era ele, portanto, digno que contemplar o Criador? Quem melhor que ele poderia compreender a magnitude divina?

Foi envolvido nessas conjunturas que resolveu visitar o altar do templo a ele confiado desde muitos anos e meditar. Lá chegando, porém, surpreendeu-se com a figura de um mendigo que, curvado sobre o chão empoeirado, orava com fervor. De olhos fitos no alto e de mãos postas, o peregrino da miséria parecia imerso em um oceano de puras e angélicas emoções. A imagem de fé que tinha diante dos olhos era tamanha que Johann sentiu-se diminuir na sua altivez. Do alto da sua autoridade, admitia que nunca se exporia a prostrar-se no solo daquela maneira, diante de todos, para entregar-se a prece. Mas aquele ser que tinha diante de si, aparentemente ignorante, parecia tocado por algo que, agora, reconhecia nunca ter experimentado em sua longa existência.

Ao erguer-se, na sua indigência, o andarilho tinha os olhos brilhantes e um contagiante sorriso no rosto enrugado pelo tempo. Cativado pela ocorrência inusitada, Johann rendeu-se e falou, algo melancólico: "Muitas vezes, em minhas reflexões, me pergunto por que Deus não se dirige a nós, como fazia em tempos passados, conforme lemos nas Sagradas Escrituras. Ninguém hoje em dia vê Deus, quando na antiguidade Ele aparecia às pessoas com tanta freqüência e por diversas maneiras, provando a Sua existência. Por vezes sinto que Ele abandonou os seus filhos."
Ao que o estranho respondeu: "Senhor, permita-me dizer que Deus jamais esqueceu os seus filhos e, ademais, nunca deixou de fazer-se perceptível a todos os homens. O grande problema é que, hoje em dia, e ao contrário do passado, já não existem muitas pessoas capazes de curvar-se o bastante para percebê-Lo."

Bruno Gomes.
26/07/2012

* Inspirado em uma passagem do livro "O Homem e seus Símbolos" de Carl Gustav Jung.

domingo, 10 de junho de 2012

NECESSIDADE DO EXEMPLO

Certa feita, Kasturba, a esposa de Gandhi, resolveu levar a presença do seu marido um velho amigo cuja saúde muito a preocupava. Sendo um senhor de idade avançada e não seguindo os conselhos médicos para diminuir a quantidade de sal na sua alimentação, a senhora Gandhi decidiu levá-lo para aconselhamento junto ao seu esposo, confiante que estava na energia contagiante e na palavra sábia do líder, que a todos sempre tocava.

Logo após uma das suas longas meditações, Gandhi recebeu a parceira acompanhada do amigo que, ensimesmado, comparecia àquele encontro.
Quebrando o silêncio, a senhora Gandhi falou: "Eis aqui o amigo teimoso do qual te falei. Tendo a saúde abalada por causa da grande quantidade de sal que ingere, ele se nega a passar por uma reeducação alimentar. Assim, resolvi trazê-lo aqui para que você, com a autoridade dos seus exemplos, o persuada a tal cometimento."
Todavia, para grande surpresa da sua esposa, Gandhi estranhamente empalideceu. Silenciou por alguns momentos e, frustrando todas as expectativas, respondeu timidamente: "Por favor, voltem daqui há um mês."

Algo contrariada, Kasturba retirou-se e esperou um mês para retornar com o amigo.
Ao reencontrar-se com o esposo, passados os 30 dias, a postura dele em relação a necessidade do enfermo foi totalmente inversa.
Gandhi falava, entusiasmado: "Senhor! Para o seu próprio bem, diminua a quantidade de sal na sua alimentação, a fim de que você possa adquirir maior qualidade de vida, sendo útil aos seus semelhantes!" 
E, por longo tempo, dialogou eloqüentemente com o homem, logrando finalmente convencê-lo.

Ao final da conversação, após a saída do amigo, a senhora Gandhi questionou o marido, confusa: "Não entendi a sua postura. O problema do meu amigo era o mesmo que o do mês passado. Logo, você poderia ter dado a mesma resposta que o ofereceu hoje. Por que você nos fez esperar todo esse tempo?"
Ao que Gandhi concluiu: "É que no mês passado eu também comia muito sal."

Bruno Gomes
09/06/12

* Inspirado em um fato real.

domingo, 6 de maio de 2012

MANUSCRITO

Querido manuscrito,
Fiel depositário dos íntimos segredos de minha alma.
Depois de Deus, foste tu o meu fiel confessor, o espelho do meu ser.
O mundo não me conhece; tu, sim.

E eis que a ti me apresento tal como sou, com as minhas fraquezas.
Para contigo, sou homem; para a sociedade, um missionário.
Muitos me julgam impecável.
Por que me pedirão o impossível?

Por que exigir do simples homem a força do gigante;
Quando não passa de pigmeu igual aos seus semelhantes?

Não sou virtuoso, não; mas sou razoável, essencialmente racionalista.
Não busco a santidade, mas o progresso, porque, em suma, que é a santidade na Terra, segundo a consideram as religiões?
É a intolerância de um homem por si mesmo, é o aniquilamento do seu corpo, é a postergação de todas as Leis Naturais!

Poderá tal santidade ser grata aos olhos de Deus?
Acaso se comprazerá Ele vendo seu filho lutar como uma fera sedenta contra si mesmo?

Bruno Gomes.
04/05/2012

* Inspirado na obra "Memórias do Padre Germano".

quinta-feira, 1 de março de 2012

(DES)RESSENTIMENTO

Quando um afeto torna-se um desafeto
Empreende todos os esforços por mantê-lo no coração
Busca-o e, humildemente, pede perdão por tuas faltas
Confessando-te falível e não isento de defeitos

Ao teu turno, desculpa também as ofensas recebidas
As palavras e agressões vindas no momento do embate
Ouve com compreensão e simpatia os motivos do outro
Como também precisa destas virtudes para com as tuas razões

Todavia, se o ex-afeto se nega ao diálogo conciliador
Obstinando-se contra o reencontro reparador do mal-entendido
Preferindo permanecer mergulhado na mágoa e no rancor
Os últimos recursos disponíveis são o silêncio e a oração

Dói dormir sabendo-se não querido por alguém
E ser alvo de ironias, hostilidade e desdém gratuitos
Mas uma vez que fizestes tudo o possível pela reconciliação
Permaneces, pois, com a consciência calma e tranqüila

Ores sinceramente em favor do outro e permaneces sempre aberto
Nunca se opondo ao retorno a amizade e a convivência sadias
Não se permitindo qualquer sentimento infeliz para com ele
E deixando ao tempo a tarefa de colocar tudo no seu devido lugar

Jesus também foi alvo de antipatias e dores morais
Não se surpreenda, portanto, que o mesmo lhe aconteça
Mas permanece como Ele, com os braços sempre estendidos
Para o retorno do (des)afeto como irmão, colega, amigo

Bruno Gomes
01/03/2012

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O POETA ESPANTALHO

Poemas vazios que jazem em folhas secas, brancas
Versos pobres de singeleza, encanto e singela esperança
Letras garrafais da mente lúcida, translúcida
Que viajam por mãos pedintes, avaras, astutas

Escreve o que vive e, talvez, o que sonha
Infrene, solícita, em dor, melodia risonha
Mergulhando no oceano dentro de si, artimanha
Olhos virados para dentro, em silêncio, alcança

Sílabas que caem doces do ar, flutua, me ensina
Juntas, separadas, misturadas, em rima
Um sentido não-sentido, sentindo, minha sina
Bailando ao meu redor, ingênua, bela, menina

Frases desorganizadas, altivas, atônitas
Orquestra de verbos desafinados, desarticulados, sinfônica
De amores não-amados, de beijos não dados
Por corações alados, em sutis toques roubados

Tudo o que eu queria era tornar-me algo bonito
Através do amor, do estertor, do infinito
Pela natureza, pela claridade, pela divindade
Escravizado sem correntes, libertado sem saudade

Mas ainda assim escrevo páginas, capítulos, livros
Que deverão ser construídos, revisados, vividos
Mesmo que recusados, cassados, queimados
São todos meus, sem nome, palhaço, espantalho

Rei sem coroa, ator sem palco, poeta sem pena
Vagando em vida, nua, desnuda, pequena
Contemplando luas, ruas, estradas, cenas
E não encontrando um fim retórico para os seus poemas

Vivendo ilusões, vestindo rasgados calções
Regando flores com lágrimas, entoando antigas canções

Bruno Gomes
25/02/2011

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O GURU INÚTIL

Uma conhecida parábola oriental fala de uma senhora viúva que resolveu abrigar um sábio guru no quintal da sua residência.
Verificando a necessidade daquele homem piedoso, deu-lhe comida, abrigo e tranqüilidade para que cumprisse a sua rígida rotina de meditações objetivando a iluminação.

Certa feita, desconfiada sobre a integridade do guru, a senhora resolveu aplicar-lhe uma prova.
Contratou a preço de cinco moedas de ouro uma belíssima bailarina, vendedora de ilusões e dedicada ao comércio do corpo, para aferir a resistência do homem santo.

Na noite aprazada, a jovem adentrou o interior da cabana, tentando incendiar os apetites carnais do guru com a sua beleza e sensualidade.
Bailou, despiu-se, o tocou e o provocou, mas o homem mantinha-se impassível e imperturbável em seu superior estado de plenitude.

Então, após três noites, ela desistiu e retornou até a senhora dizendo: Desculpe-me, mas eu tentei conquistar o guru de todas as maneiras possíveis e ele não cedeu. Ele realmente é um homem santo.

Intrigada, a hospedeira do guru indaga: Mas ele não fez nada, não lhe disse algo?
- Nem mesmo uma só palavra, respondeu a jovem.
- Então toma as tuas moedas. Você fez a sua parte, finalizou a senhora.

Inusitadamente, a viúva tomou de uma larga vassoura e seguiu aos gritos em direção à cabana, assustando a vizinhança que conhecia o carinho e a benevolência com o qual tratava o meditador.

Em lá chegando, espancou o homem, destruiu a cabana e o expulsou, dizendo em alta voz para que todos a ouvissem: Testei esse homem através da luxúria. Ele resistiu por três noites ao apelo de atraente e sedutora jovem, permanecendo em estado de orações, e quanto a isso eu o aplaudo. Porém, suas práticas são de nenhuma utilidade para o mundo, porque ele nada disse àquela jovem que pudesse servir de orientação e força na restauração de um caminho novo e digno. Se é um homem de Deus, deveria agir pelo bem e não somente evitar o mal.

Bruno Gomes.
13/01/2012

Baseado em um conto do livro Laços de Afeto de Ermance Dufaux.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

ODEIA-ME OU AMA-ME?

Desejaria apoderar-me de ti e estraçalhar-te
Reduzir-te em mil pedaços, queimar-te e extinguir-te
Tornar a tua lembrança sobre a Terra uma lenda, um mito
Um sonho ruim do qual se acorda para não mais recordar

Precipitar-te nas profundezas do oceano para que habites os abismos
Para sempre longe da vida e dos olhos humanos
Torturar-te como me torturas, maltratar-te como me maltratas
Afundar-te no rio de lágrimas que verto por causa de ti

Mas tudo isso apenas a ti me assemelharia
Oh, odiosa e inditosa sensação
Cruel destruidora das alegrias e da paz
Terrível verdugo meu, pergunto-te: odeia-me ou ama-me?

Bruno Gomes
11/01/2012