segunda-feira, 27 de junho de 2011

O SONHO DE BRUNO

O jovem Bruno sonhou certa noite que estava no mais alto dos céus.
No lugar que se encontra acima mesmo das estrelas.

Era tudo tão lindo à sua volta – um vale silencioso, o sol nascendo atrás das colinas distantes, flores perfumadas inebriando o ar, pássaros multicoloridos a cantarolar...
E ele sozinho, sob a sombra de uma frondosa árvore de vasta copa, diante de um rio cristalino que corria calmamente na direção do infinito.

Mas tão logo se reconheceu ali, ainda envolvo em surpresa, Bruno começou a sentir fome.
E, aparentemente, não havia ninguém ao seu redor para ajudá-lo.

Dessa forma, ele gritou: "Olá! Tem alguém aí?"
E, de repente, um homem sorridente e simpático apareceu, envolto em trajes curiosos.
Após cumprimentá-lo, o estranho falou-lhe gentilmente: "Estou às suas ordens, senhor. Tudo o que mandar, eu farei."

Assim sendo, como tinha fome, Bruno pediu primeiramente a comida que necessitava.
E tudo aquilo que solicitava, era imediatamente atendido.
Não se perdia um só minuto: tudo estava ali, rápida e sucessivamente.

Comeu farto banquete até sentir-se satisfeito, experimentou bebidas exóticas e dormiu bem durante todo o dia.
Tudo o que precisasse lhe era trazido: belas roupas, riquezas raras, diversão constante, prazeres variados.

Se desejava uma mulher bonita, lá estava ela o esperando adornada em jóias. Se necessitava de uma cama confortável para a noite, ali encontrava-se ela, como em um passe de mágica.

Um desejo, um pedido, uma realização...
E isto continuou por vários dias ininterruptos de doce contemplação.

Todavia, com o passar do tempo, Bruno começou a sentir-se desgastado. Tudo era bom demais.
Não mais podendo tolerar tal situação, ele começou a procurar por alguma miséria. Afinal, tudo ali era tão bonito.

Começou a procurar preocupações, pois jamais havia vivido sem elas; alguma ansiedade, alguma coisa pela qual se sentisse triste e deprimido.
E tudo era tão pleno, tão insuportavelmente perfeito!

Desse modo, ele chamou o estranho e desabafou: "É demais, basta! Gostaria de ter algum trabalho para fazer. Estou há dias aqui sentado inutilmente, de mãos vazias e mergulhado em ociosidade. Estou ficando entediado!"

O homem generoso respondeu: "Posso fazer tudo pelo senhor, mas isso não me é possível. Qualquer outra coisa que necessite, estarei pronto para lhe dar. Ademais, para quê procurar trabalho? Quando tudo é imediatamente satisfeito, não se precisa trabalhar!"

Ao ouvir isso, Bruno disse: "Mas estou saturado! É melhor estar no inferno, caso nenhum trabalho me possa ser oferecido."

O homem sorriu e concluiu: "E onde o senhor pensa que está?"

Bruno Gomes.
29/10/2010

Baseado em uma palestra proferida por Osho em Poona, Índia (1975).

terça-feira, 21 de junho de 2011

O BEM-PENSAR

Se existe uma coisa no mundo que é difícil de controlar é o pensamento.
Afinal de contas, você não pode simplesmente parar de pensar.
A mente é um instrumento dinâmico e não um aparelho com um botão on/off que você liga e desliga conforme as circunstâncias.

Os estudiosos dizem que nós temos milhares de pensamentos por dia, sendo que não temos a mínima consciência da imensa maioria deles.
Na verdade a coisa é tão complexa que você pode pensar em fazer alguma coisa e não fazê-la. Entretanto, você não pode pensar em não pensar em alguma coisa, porque o simples fato de pensar em não pensar nela já é uma forma de pensar nela no final das contas.

"Não pense em um abacaxi", e a imagem dele é a primeira coisa que aparece na sua tela mental.
Eis porque não devemos falar: "Não pense nada", pois isso é impossível.
O ideal seria dizer: "Pense em nada", pois mesmo sendo o nada um nada, ele é uma coisa para o pensamento se fixar, mesmo sendo um conceito abstrato.

Os estímulos exteriores que nos chegam à mente são inumeráveis, demandando a nossa constante atenção. A própria realidade de se ter órgãos de visão e audição faz você ter o imperioso impulso de pensar: você vê uma coisa e pensa no que viu; você ouve uma coisa e pensa no que ouviu.

Dessa forma, ao nos conscientizarmos disso, iniciamos um novo e grande desafio: como não posso parar de pensar, me esforçarei para sempre ter apenas bons pensamentos.
Teoricamente é fácil, mas a prática...

O que mais dificulta o nosso bem-pensar é a nossa tendência de tudo julgar. Nós vemos alguma coisa e temos a irremediável necessidade de emitir um julgamento sobre ela: isso é certo ou errado, é bom ou ruim, é verdadeiro ou falso, é bonito ou feio, e assim por diante.
Ainda é difícil vermos algo e termos uma atitude de simples contemplação: apenas observar a situação, objeto ou pessoa, sem emitir nenhum juízo.

Infelizmente, nós, pertencentes à civilização ocidental, não temos a cultura de realizar exercícios de meditação, de respiração, de pacificação da mente, o que certamente ajudaria na tarefa. E isso é sempre um fator gerador de culpa e ansiedade para as pessoas de boa-vontade, que querem melhorar-se, pelo fato de cotidianamente serem visitadas por maus pensamentos inesperados, e alguns até mesmo inoportunos.

Ora, o bem-pensar é um hábito e todo hábito é uma necessidade humana. O que equivale dizer que quem não os tem bons os terá maus; mas os terá de qualquer forma.
Desse modo, cabe-nos o esforço por desenvolver esse novo hábito do pensar bem. E como todo hábito, ele é adquirido pela repetição.
Você repete constantemente a ação de pensar positivamente e de não julgar, até que isso gere um novo automatismo mental, uma espécie de 2ª natureza.

Afinal, ser visitado por maus pensamentos é natural, pois estamos mergulhados em um mundo de vibrações heterogêneas. Mas o importante é não vitalizar o mau pensamento.
Ou seja, o problema não é a visita, e sim a vitalização.

Por exemplo: alguém faz algo com você que não te agradou. É provável que você seja visitado por um pensamento malsão referente a isso. É o hábito antigo querendo se impor.
Todavia, você não o agasalhará, evitando vitalizá-lo com pensamentos de ressentimentos e mágoa contra a pessoa, desejo de fazê-la algum mal, vingar-se, etc.

Essa visita do mau pensamento acontece como nas visitas cotidianas: o pensamento baterá à sua porta e você a abrirá naturalmente, sem angústias. Se for bom, você o deixará entrar; caso contrário, você fechará a porta e voltará para os seus quefazeres e, em alguns minutos, nem mais se lembrará dele.

Pois o lutar contra o pensamento é uma tarefa infrutífera, já que o mesmo agirá como uma mola: quanto mais você a empurra no sentido contrário, mais aumenta nela a força de retorno.
Como diria Carl Gustav Jung: "Aquilo a que você resiste, persiste."

Aí encontramos a diferença entre o ser "visitado" pelo mau pensamento (que é compreensível) e o "vitalizar" o mau pensamento (que já é uma questão moral).

O problema, é que, iniciadas as primeiras experiências (geralmente de resultados insatisfatórios), nos desestimulamos facilmente, julgando ser impossível alcançar a meta.
Ora, hábitos longamente cultivados, muitos deles por anos a fio, não serão substituídos de uma hora para outra, após poucas e tímidas tentativas.

Mas a mudança deve ser iniciada mesmo assim, através do mecanismo da repetição, com insistência e confiança na eficácia, pois hoje colhemos nos nossos hábitos os frutos de semeaduras negligentes estimuladas no passado.
A plantação das sementes dos bons pensamentos deve ser iniciada imediatamente e não postergada, sob o argumento da dificuldade.

Essa nova forma de pensar, agregando-se e tornando-se parte do comportamento, é o primeiro passo para a disciplina e o controle mental, totalmente canalizado para o bem, que virá oportunamente.

Bruno Gomes.
09/12/2010

quinta-feira, 16 de junho de 2011

ONDE ESTÁ A FELICIDADE?

Não sendo natural o fato de alguém desejar o mal para si mesmo, todos nós somos atraídos para a felicidade.
É um impulso inevitável que nos dirige na direção daquilo que julgamos que nos fará felizes ou, pelo menos, nos colocará no caminho que nos levará a felicidade que almejamos.
Algumas pessoas chegam mesmo a acreditar que nós nascemos exclusivamente para isso: para buscarmos a felicidade onde ela se encontre.

Dessa forma, ordinariamente nós a buscamos em determinadas coisas, algumas delas convencionadas por outras pessoas como indispensáveis para nos trazer a felicidade.
Isto é, uma vez em posse de todas elas, em tese, nós seremos felizes.
O que nos leva a concluir que, por extensão, quem não as possui, não poderá ser feliz.

Entretanto, quando nós analizamos os vários exemplos do dia a dia, verificamos que esse conceito de felicidade não é aplicável em um universo muito vasto de pessoas.
Afinal, por que tantos seres sorriem nas suas dificuldades e outros tantos choram sobre as suas abastanças?

Ser feliz é ter uma vida isenta de problemas e desafios, onde sempre gozamos de facilidades e possuímos tudo o que necessitamos?
Se positivo, por que há pessoas que têm tudo aquilo que julgamos fazer uma pessoa feliz, e não o são? E por que existem outras tantas que não possuem nada daquilo que achamos fazer uma pessoa feliz, e o são?

Quem nunca visitou pessoas em hospitais que sofrem de doenças degenerativas dolorosas, sem nenhuma perspectiva de cura e que nos surpreendem com um sorriso de simpatia e bom-humor, repletas de confiança e otimismo nos seus diálogos? Ao mesmo tempo, quem nunca teve amigos jovens e saudáveis, mergulhados em depressão e inquietações existenciais as mais afligentes?

Como solucionar esse aparente paradoxo?
O que concluir dessa contradição?

A solução é muito simples: a felicidade não está em nada externo.
Muito embora existam coisas que contribuam para nos trazer segurança, elas não são necessariamente fatores imprescindíveis à nossa felicidade, como bem mostram os muitos exemplos que possuímos diante dos nossos olhos.

Exemplos de indivíduos que não são portadores desses fatores-felicidade estabelecidos e que, no entanto, são portadores de jovialidade e excelente disposição para o bom combate diário. Enquanto que, ao lado desses, vemos aqueloutros possuidores de todos esses elementos pré-convencionados como propiciadores da felicidade e que, não obstante, se encontram mergulhados em insatisfações, amarguras e conflitos os mais perturbadores.

É certo que nem todos os dias da nossa existência serão de sol e de festas. E nem poderia ser, no mundo de impermanências no qual vivemos. Haverá dias mais difíceis que outros.
O que faremos então? Perderemos a nossa paz por causa desses momentos transitórios ou deveremos vivenciá-los com naturalidade e solucioná-los serenamente, não permitindo que nos afete negativamente e comprometa a nossa alegria de viver?

Essa é uma reflexão importante que todos devem fazer, pois o problema muitas vezes não está ''no problema'', mas sim na nossa forma de encará-lo, o que faz com que ele não tenha nenhum impacto em determinado ser e seja motivo de desespero para outro, tomando proporções que não correspondem à realidade.

A experiência nos mostra algo patente: a felicidade não se encontra em uma vida onde tudo é tranqüilidade e um perpétuo mar de rosas.
Mas a verdadeira felicidade reside em um estado interno de contentamento, que nos permite transitar pelas diversas situações da vida, algumas tristes e outras alegres, sem perder esse clima emocional de satisfação e de júbilo íntimo por estarmos simplesmente vivos, por termos ideais, por podermos oferecer amor e por confiarmos em um futuro melhor.

Bruno Gomes
15/06/2011

quarta-feira, 8 de junho de 2011

PODER E DEVER

"Nem tudo o que eu posso fazer, eu devo fazer;
E nem tudo o que eu devo fazer, eu posso fazer."

Esse é um conceito conhecido por todos e aparentemente fácil de ser colocado em prática, não é mesmo?
Em uma análise superficial, não nos parece ser necessária uma profunda filosofia para compreendê-lo.

Por exemplo:
Eu posso andar pelado pela rua? Posso, sem dúvidas. Nada me impede de sair sem roupas por aí.
Mas eu devo fazer isso? Certamente que não. Além de ser algo totalmente inoportuno, essa atitude poderia me trazer sérias conseqüências legais. Afinal de contas, isso é um grave atentado ao pudor.
Por outro lado, eu devo fazer um mestrado? Obviamente que sim, pois é sempre bom se aprimorar profissionalmente e aprender coisas novas no seu campo de estudos.
Mas eu posso fazer isso agora? Não, pois me falta o dinheiro para isso, o que torna o plano inviável, pelo menos no momento atual.

Aplicar essa teoria no cotidiano parece simples, sem maiores complexidades. O problema não estar no entendimento da idéia, mas sim no saber criar os critérios que irão reger o nosso comportamento baseado nela.
É neste ponto onde se encontra toda a confusão, pois é necessária uma boa dose de coerência para estabelecer as diretrizes da nossa ação.

Afinal, quem não tem o bom-senso para fazer esse exame da forma correta, costuma fazer o que pode quando não deve e o que deve quando não pode, e isso enrola a vida de qualquer pessoa.
Pois nesse paradoxo do poder e do dever, é indispensável certa habilidade para saber:
- Diferenciar o "querer fazer" do "ser conveniente fazer";
- Reconhecer o "desejar realizar" do "quando realizar".

Uma das coisas que mais dificulta essa apreciação é que, muitas vezes, nós não sabemos o que realmente queremos, quanto mais distinguir o momento apropriado para tentarmos atingir os nossos objetivos.
Seria muito bom que pudéssemos viver só das nossas boas intenções, mas é importante verificar se elas são compatíveis com as circunstâncias e momentos nos quais nos encontramos, a fim de evitar que vivamos exclusivamente de ilusões e utopias.

Você pode viver esperando a pessoa perfeita chegar à sua vida. Mas não deveria fazer isso, pois assim como você não é perfeito(a) para atender todas as expectativas afetivas de alguém, não há ninguém no mundo que possa satisfazer 100% das suas.
Você deve pensar que existem pessoas boas colaborando para um planeta melhor. Mas não pode achar que não há algumas más ao lado delas. O que nos leva a concluir que, se não precisamos ficar o tempo todo com o pé atrás, ao mesmo tempo não devemos ser demasiadamente ingênuos.

O que nos sobra no final das contas?
Começarmos o processo de nos auto-conhecermos melhor, para bem compreendermos a abrangência desse pensamento que, se por um lado, é singelo, por outro, demanda um alto grau de sabedoria para saber usá-lo sempre a nosso favor.

Bruno Gomes
08/06/2011