terça-feira, 31 de maio de 2011

SOZINHO OU SOLITÁRIO?

O homem nunca se sente tão seguro na vida quanto no momento em que ele tem a certeza de que é amado por outrem. Ele sabe que existe alguém no mundo que o ama plenamente; e isso o dá segurança.
Não existe nada mais difícil do que acostumar-se com a distância daquilo a que estamos vinculados por laços fortes e que queremos ter invariavelmente perto de nós, ao alcance de um abraço, de um beijo e de um aconchego. De uma conversa animada, de um olhar de carinho e de ternura.

Afinal, como diria Victor Hugo: "A suprema felicidade da vida é a convicção de ser amado por aquilo que você é, ou melhor, apesar daquilo que você é."

Mas será que existe alguma diferença entre o está sozinho e o ser solitário?
Atualmente nós vemos uma corrida desenfreada por relacionamentos, consequência natural de um olhar precipitado sobre essas duas coisas aparentemente sinônimas, mas que não o são.
Um fato é patente e facilmente verificável: as pessoas não conseguem mais estar sozinhas, pois acham que isso significa ser irremediavelmente infeliz.

Elas podem ter dezenas de amigos queridos, familiares, companheiros de atividades, entre outros...
Mas caso não tenham um(a) namorado(a), logo sentem-se carentes e incompletas, resultados imediatos de uma insatisfação íntima consigo.
Elas não bastam ou são suficientes a si mesmas; logo, necessitam de alguém que faça isso por elas e que as preencha.

E, dessa forma, nós as vemos engatando relacionamentos após relacionamentos, acabando cada um deles muitas vezes pelos mesmos motivos e conflitos pelos quais acabaram todos os anteriores.
Assemelham-se a pequenos macaquinhos que vivem em uma árvore, pulando indefinidamente de galho em galho e nunca encontrando o seu ninho, pelo fato de o procurarem sempre em algo/alguém externo e nunca dentro de si mesmos.

O temor do se está sozinho faz parte do rol dos grandes receios da criatura humana, ao lado do medo da solidão, que é um dos gigantes que amedrontam as pessoas, gerando imensa dose de ansiedade, incerteza e inseguraça.
E essa é uma análise importante a ser feita, afinal o instinto gregário é inerente a todos os indivíduos; isto é, todos nós temos uma punjente necessidade de nos agregar, o que nos leva de forma poderosa a nos juntar, a nos reunir, a estarmos ao lado de outros seres, para a convivência saudável, o compartilhar de idéias, interesses, etc.

Esse é um instinto que encontramos desde o homem primitivo, quando ele procurava unir-se em grupos nas cavernas, nas tribos e nas primeiras comunidades. É possível observar isso até mesmo entre alguns animais, quando eles se juntam em bandos para a caça, para a procura de alimentos, para a defesa contra predadores e assim por diante.
Mas no homem esse impulso de se socializar é tão singular ao ponto de serem consideradas como verdadeiras patologias determinadas tendências que levam as pessoas a evitarem ou temerem esse contato.

Todavia, nessa análise, nós chegamos ao ponto de analisar a questão inicial: "Existe alguma diferença entre está sozinho e ser solitário?"
Toda pessoa que está sozinha é solitária? E toda pessoa que é solitária está sozinha?

Meditando sobre o assunto, eu criei certas analogias para me facilitar e que me ajudaram a separar mentalmente essas duas coisas: enquanto o estar sozinho é um estado físico, o ser solitário é mais um estado emocional.
Vou dar um exemplo para me fazer melhor compreendido:

Eu estou em casa sozinho. Não há ninguém lá além de mim. Todos saíram e eu estou só. Mas, apesar desse temporário estado de coisas, eu estou emocionalmente vinculado a várias pessoas, o que me impede de sentir-me solitário. Eu posso simplesmente sair e encontrar amigos. Posso ligar para colegas e marcar algo.
Por outro lado, referente à solidão, eu posso estar no meio de uma multidão, com milhares de pessoas ao meu redor. Posso até mesmo me encontrar em uma festa, cercado por diversos indivíduos. Mas eu não estou ligado a nenhum deles, ou seja, apesar de não está sozinho, eu me sinto profundamente solitário.

E isso leva a conclusão de que, se o estar sozinho algumas vezes é útil, o sentir-se solitário nunca o é.
Nós deveríamos valorizar mais os momentos em que nos encontramos a sós, em contato com nós mesmos, ao invés de temer essa situação.
Afinal de contas, esse é uma condição indispensável para a execução de determinadas tarefas e a realização de coisas relevantes para o homem.

Certamente Albert Einstein precisou do silêncio do estar só para desenvolver a Teoria da Relatividade, assim como Isaac Newton necessitou do mesmo recolhimento para descrever a Lei da Gravitação Universal. Mozart precisou de ocasião equivalente para focar toda a sua atenção na composição do Requiem, assim como Beethoven para escrever a sua 9ª Sinfonia. O príncipe Siddhartha Gautama demandou semelhante situação para mergulhar em meditação e tornar-se Buda. Os santos procuraram esse afastamento para se iluminarem, assim com Shakespeare para finalizar as suas famosas peças.

Será que Michelangelo pintaria com a mesma grandiosidade o teto da Capela Sistina caso estivesse em meio ao vozerio e a balbúrdia de um encontro social regado a conversações variadas, músicas infrene, barulhos irritantes e ruídos desagradáveis?

Assim sendo, não devemos recear o fato de estarmos, no momento, sozinhos(as).
E essa não é uma apologia a uma vida a sós; até porque eu não quero viver eternamente assim.
Mas aproveitemos essa circunstância, quando ela se nos apresentar, para a prática de coisas para as quais o estar sozinho(a) é um pré-requisito imprescindível: o auto-conhecimento, o estudo, a formulação de planos, a deliberação de metas, etc.

Quando cultivamos afetos, amizades sinceras e desinteressadas, mesmo que estejamos sozinhos, nunca nos sentiremos solitários, pois essa ligação emocional inevitavelmente fará com que nos sintamos constantemente inseridos e queridos pelas almas que comungam conosco da existência.

Afinal, como disse Chico Xavier: "Quem é solidário, nunca é solitário."

Bruno Gomes
29/05/2011

sábado, 21 de maio de 2011

A MÁSCARA

Já pararam para pensar o quão pejorativo é o conceito de máscara que possuímos?
Quando sabemos que alguém usa uma máscara nos relacionamentos sociais, imediatamente censuramos e julgamos essa pessoa como falsa e hipócrita, por não se mostrar aos olhos do mundo conforme realmente é.

Fui despertado para tais reflexões através de uma conversação que ouvi recentemente, onde uma amiga dialogava com outra, algo irritada: "Fulana é muito mascarada. Nunca sabemos quais são as suas reais intenções. Ela é muito perigosa e temos que ser cautelosas quanto a isso."

Não sei o porquê, mas aquele comentário fez nascer em mim uma espécie de inquietação íntima e não parei de pensar no assunto nas 2 horas que se seguiram, onde tudo o que eu julgava certo sobre o tema se me apresentava errado e vice-versa.

O primeiro questionamento que me veio à mente foi: "Existe alguém no mundo que não use máscaras e se mostre conforme realmente é em todas as ocasiões?"
Você se mostra como você é em sua casa para o seu chefe? Para os seus colegas de trabalho? Para o seu/sua namorado(a)? Durante uma importante entrevista de emprego?

E isso nos leva irremediavelmente a uma nova pergunta: "É válido nos mostrarmos como realmente somos em todas essas situações, patenteando perante todas as pessoas a nossa bagagem de conflitos, dificuldades e fraquezas?"

É oportuno, por exemplo, eu me mostrar ao meu superior hierárquico no ambiente de trabalho, pela obrigatoriedade da execução de uma nova tarefa, da mesma forma como me mostro à minha mãe quando não quero lavar as louças sujas no ambiente doméstico?
Essa demonstração corajosa de "ser sempre o que sou" agregaria algo nesse contato, favorecendo a convivência de ambos, ou traria mais inconvenientes do que benefícios?

E, dessa forma, após responder a mim mesmo todas as interrogações acima, eu cheguei à conclusão de que todos nós usamos máscaras. Inclusive eu. Todos os dias. É inevitável.
As máscaras ainda são uma necessidade emocional que possuímos e não podemos, por enquanto, descartar.

Elas são moldadas por nós de acordo com as diferentes necessidades e momentos nos quais nos encontramos, e adequadas, cada uma delas, a determinadas circunstâncias da vida.
Tal como uma vestimenta que usamos e que é correspondente aos tipos de compromissos e locais a que somos chamados a estar; mas que continua sendo apenas uma indumentária que nos cobre, e não nós mesmos.

Quem se mostra como realmente é durante uma paquera (indiscutivelmente o contato mais mascarado que existe), quando se quer conquistar outrem, demonstrando o que se tem de melhor?
O homem usa a máscara do rapaz bom, educado e atencioso, enquanto a mulher usa a da mocinha simpática, frágil e doce.
Por que haveria necessidade de cada um mostrar nesse momento todas as suas torpezas e fragilidades morais, quando daquele relacionamento poderá advir o amadurecimento do caráter de ambos através da experiência baseada no carinho e na ternura?

O problema não está nas máscaras, especialmente quando se tem plena consciência de que elas representam tão somente uma parte do que somos e não "o todo" de nós.
O risco está em se viver exclusivamente da máscara e, o que é pior, julgar-se ser a máscara, gerando uma perda na identidade e a mutilação de um pouco daquilo do que realmente se é.

Isso faria com que perdêssemos algo do que somos em essência, preocupados que estaríamos em sempre manter essa imagem temporária para os outros, fugindo de nós mesmos e receando o enfrentamento com a (nossa) realidade, mergulhados em um conflito onde a questão final seria: "Eu sou eu? Ou sou a máscara que uso?"

Essa análise guardaria certa analogia com a da mentira?
Quem nunca disse uma mentira?
Quem nunca mentiu para uma pessoa querida, omitindo algo, por saber que a verdade não seria suportada por ela naquele momento?
Quem nunca escondeu uma informação de alguém a quem ama, transferindo a divulgação para um momento apropriado, quando a pessoa estaria suficientemente fortalecida para digeri-la com serenidade?

Então seria a mentira, assim como a máscara, às vezes aplicável e útil, conquanto que não se viva da mentira e, o que seria ainda mais lamentável, não se minta ao ponto de considerar a mentira como uma verdade?

O homem ainda não tem a capacidade de isentar-se de todas as suas máscaras e se contemplar totalmente desnudo diante de si mesmo, quanto mais de colocar-se de forma equivalente perante os severos olhos do mundo. Não possuímos suficiente maturidade para tolerar semelhante exposição do nosso verdadeiro "eu" em caráter integral.

É como o mito bíblico de Adão e Eva no Paraíso: quando se viram totalmente nus, procuraram se cobrir e esconder-se.
E essas coberturas e esconderijos nada mais são do que as nossas personas do dia a dia, usadas até o momento em que não forem mais necessárias, consequência natural do nosso crescimento e da integração do que realmente somos com aquilo que projetamos.

Bruno Gomes
19/05/2011

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O BANQUETE DE PLATÃO

Um pouco de filosofia, pois filosofar é preciso...

"Pois não sei de bem maior que se pode proporcionar a alguém do que amá-lo virtuosamente, nem para um amante do que amar um objeto virtuoso.

Porque, de fato, o que deve orientar os homens que desejam viver uma vida feliz e honesta, isto não o são nem as linhagens, nem as honrarias, nem a riqueza.
Só o amor consegue dar isso.

Que coisa, pois, deve orientar os homens?
Julgo que às ações vis e desonestas se liga a desonra e às boas ações está ligado o amor.
Ouso até afirmar que se um homem ama e comete uma ação má, sofre muito mais com a reprovação da pessoa que ama do que com a que viesse de seu pai, de algum parente ou amigo.

O mesmo se dá com o que é amado.
Nunca um indivíduo se mostra mais confuso do que quando, por via de alguma falta sua, é surpreendido pela pessoa que ama.

De sorte que se fosse possível formar, de algum modo, um Estado ou um exército exclusivamente composto de amantes e amados, assim se obteria uma constituição política insuperável, pois ninguém faria o que fosse desonesto, e todos, naturalmente, se estimulariam para a prática das mais belas coisas.

Na luta, um desses exércitos, mesmo reduzido, obteria grandes vitórias sobre todos os inimigos, pois se um soldado às vezes suporta que os seus companheiros o vejam largar as armas e desertar, jamais desejaria que o seu amado o visse fugir, e a isso preferia a morte.

Além disso, ninguém é tão covarde que sucumba ao medo, fuja e não auxilie o seu amado, abandonando-o aos perigos!

Bela é a ação correta e boa; feia, é aquela incorreta e má.
O mesmo podemos estender ao amor, dizendo que nem todo Eros é em si mesmo belo e louvável, mas se torna belo e louvável unicamente quando nos encaminha para um amor que é igualmente belo e louvável.

Mau, com efeito, é o amante vulgar que prefere o corpo ao espírito, pois o seu amor não é duradouro por não se dirigir a um objeto que perdure.
A flor do corpo que ama vem um dia a murchar – e então ele "se retira ligeiro como as asas", esquecendo-se das declarações e muitas juras que fez.

O contrário, porém, acontece com aquele que ama uma bela alma e permanece a vida toda fiel a um objeto duradouro.

Quando o amante e o amado concordam em ter por lei, um, prestar ao amado todos os serviços que não firam a virtude, e o outro, servir em tudo o que não se oponha à justiça e a ajudá-lo a tornar-se sábio e bom, só então não é desonesto.
De outro modo, não!

Os deuses sancionam o esforço e a coragem nascidos do amor!
Se verdadeiramente os deuses sabem apreciar a força que nasce do amor, mais admiram e recompensam se é o que ama que se sacrifica pelo que é amado.

E a razão é esta: o que ama é, de certa maneira, mais divino que o objeto amado, pois possui em si a divindade.
É possuído por um deus.

Concluo, pois, que, de todos os deuses, o Amor é o mais antigo, o mais augusto de todos, o mais capaz de tornar o homem virtuoso e feliz durante a vida e após a morte."

Platão, 427-347 a.C. (O Banquete)