sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

MEU PEQUENO JUMENTINHO

Louvado seja, ó meu pequeno jumentinho
Refúgio divino, transbordante de crua vitalidade
Armadura de carne em minha queda do ninho
Abriga-me doravante até a anelada liberdade

Mergulho em ti em um exílio terrestre
Ossos e sangue, vísceras e fluidos materiais
Ferramentas minhas arando por solo agreste
Ansioso por navegar em águas claras e lustrais

Eis instrumento de santos e imperadores cruéis
Dos que anseiam a vida ou cantam pela morte
Eis mais belo e valioso que os efêmeros ouropéis
Jornadeias comigo não questionando por qual norte

Branco vaso orgânico, ponte viva da sublimação
Transmissor da dor em vínculo com o prazer
Casca da minh’alma, purificador em bênção
Fonte de tórridos quereres, gozo e saber

Vivo em ti, mas não por tua sorte
Ages sobre mim por veias em desejos infinitos
Segrega-me em músculos qual lustroso pote
Pareces não sentir o pulsar do meu espírito

Amaldiçoas maldosamente a minha castidade
Entorpecendo-me profundamente em sensação
Grosso véu sobre minha espiritual faculdade
Ludibriando-me no labirinto da torpe ilusão

Respiras e vibras incessantemente
Tens constante fome, sede e sono
Sentes frio e calor inclemente
Necessidades animais, instintos selvagens e engano

Mas nada disso, eu sei, é culpa sua
Grandemente ingrato e orgulhoso que sou
Perdoa-me em minha pulcritude impura
Santo albergue, a minha gratidão te dou

Triste é o seu destino final entre os vermes
Trono de pele coberto por cicatrizes e suor
Até o dia em que jazerá cansado e inerme
Liberando-me flutuante e coberto em pó

Mas louvado ainda seja, ó precioso jumentinho
Por sobre o teu forte tronco eu poder cavalgar
E após eu deixar o mundo pobre e mesquinho
Em flores perfumadas irás se transformar

Bruno Gomes.
04/12/2008

Um comentário:

Germano disse...

Abençoada seja nossa indumentária carnal!

Nos carregando em direção à Perfeição.

Belo poema.