domingo, 2 de janeiro de 2011

CORTE AMERICANO

Eu sempre cortei o meu cabelo em uma antiga barbearia que tem aqui perto de casa.
É um lugar relativamente simples, sem maiores atrativos, com sua totalidade de clientes formada por pessoas do sexo masculino.
Não vá até lá pensando em fazer a unha, dar escova, luzes ou outras coisas do gênero: lá ou você corta o cabelo ou faz a barba.

Já faz vários anos que eu vou, a cada 15 dias, nessa barbearia.
As pessoas acham um exagero eu cortar o cabelo de 2 em 2 semanas; mas quem tem cabelo ruim é assim mesmo.
Começou a dar problemas para pentear, tem que cortar logo.
Quem é feio tem que ser vaidoso, não tem jeito.

Bem, agora no final do ano eu tive um encontro especial.
E como era de se esperar, eu tinha que estar bonito.
Na primeira oportunidade eu separaria uma hora na minha agenda para cortar o cabelo na velha barbearia.
Afinal aquele seria, como disse, um encontro especial.

Mas, não sei por qual motivo, chegou o dia de sair e eu ainda não o tinha cortado.
O pior é que já tinha se passado 20 dias desde que eu o havia cortado pela última vez, ou seja, o prazo de validade dele estava vencido há 5 dias.
Todavia, como eu ainda tinha a tarde toda para fazer isso, não me preocupei.

Entretanto, o problema que acabaria com meus planos ainda estava por vir: a pessoa do encontro especial me ligou no meio da manhã perguntando se eu poderia sair mais cedo à tarde, por causa de uma pequena mudança nos seus compromissos.
Dessa forma, eu não teria mais tempo de passar na barbearia.

Envolvido nesse conflito, ao sair do trabalho para almoçar, eu vi um desses centros de estética super chiques, onde mulheres ricas e elegantes geralmente freqüentam.
Eu logo pensei: "Bem, essa é a minha única alternativa. Terei que cortar o cabelo ali mesmo."

Quando entrei, eu percebi imediatamente as imensas diferenças daquele lugar em comparação a pequena barbearia onde eu costumava ir: o lugar só tinha clientes mulheres.
Eu fiquei até constrangido ao entrar.

Falei com a menina da recepção (sim, tinha recepcionista e tudo) que desejava cortar o cabelo rapidinho.
Ela me olhou e disse: "Você agendou horário?"
Eu respondi surpreso: "E tem que agendar horário? Eu não sabia."
Na barbearia era só chegar e pronto.

Eu expliquei a ela a minha urgência e que realmente precisava cortar o cabelo.
Ela foi até o interior do local e voltou dizendo que eu seria atendido em alguns minutos.
Eu tinha certeza que ia ser caríssimo cortar o cabelo naquele ambiente extravagante.
Mas como eu não tinha outra opção, tive que ficar.

De repente, chegou um rapaz e falou: "Bruno Gomes, pode entrar."
Eu pensei comigo mesmo: "Nossa, aqui chama até pelo nome. Parece consultório médico!"

Então eu sentei e ele perguntou: "Como você quer que eu corte o seu cabelo?"
Como eu estava com pressa, eu respondi: "Passa a máquina."
Ele me olhou com uma expressão curiosa e disse: "Ah. Eu não quero passar a máquina no seu cabelo não."

Eu fiquei espantado. Era só o que me faltava. Que absurdo!
Eu super atrasado para o encontro especial e o cara ainda não queria passar a máquina no meu cabelo.
Na barbearia eu falava como queria e não era questionado.

Então eu o expliquei tranqüilamente: "É que estou muito atrasado e preciso que seja algo rápido. Passa a máquina mesmo."
Ele me olhou e respondeu: "Mas passar a máquina você passa em qualquer lugar. Aqui não."
E após pensar, ele concluiu: "Por que você não faz um corte americano?"

Eu nunca tinha ouvido falar disso na minha vida.
Eu respirei fundo e o perguntei contrafeito: "O que é isso?"
Ele disse: "Você vai ver", e começou a cortar.

Sinceramente, confesso que não me preocupei muito com o que ele estava fazendo, afinal o que eu queria era cortar o cabelo o mais rápido possível.
Mas foi justamente isso o que começou a me incomodar: ele estava demorando muito!
Ele cortava uma mecha do meu cabelo e ficava com a mão no queixo olhando e pensando.
Cortava outra e reflexionava, observando o que tinha feito.

Eu pensava comigo mesmo: "Meu Deus, eu não vou sair daqui hoje."
Assim, eu comecei a olhar o horário no meu celular toda hora, de modo a fazê-lo perceber que eu realmente estava com pressa.
Ele reparou, falou que já estava acabando e me virou para o lado da TV, na esperança de entreter a minha atenção com outra coisa.

Finalmente, depois de 45 minutos, ele acabou e me virou para o espelho.
Quando eu me olhei, tomei um susto que quase cai da cadeira: eu estava de topete!
Que bizarro! Eu nunca tinha me visto daquela maneira; parecia que eu estava diante de outra pessoa!
Era um topete virado para o lado...

Ele sorriu e me perguntou: "E ai, gostou?"
Eu não sabia o que responder, pois apesar de não ter gostado do corte, eu não queria constrangê-lo.

Então ele insistiu: "Não gostou não foi?"
Eu disse: "Veja bem", e tentei falar calmamente: "É que eu nunca tinha me visto de topete antes", e fiquei apalpando aquele bolo de cabelo na frente da minha cabeça.

Para dar um toque de humor a situação desagradável, eu falei sorrindo: "Não tem um corte brasileiro não?"
"Mas essa é a nova moda!", ele informou.
"Entendi", respondi, "É que eu sou um pouco mais conservador e tradicional, entende?"

Foi só aí que fui entender o motivo daquilo se chamar corte americano: com aquele topete eu estava parecendo com o Elvis Presley.

Ele continuou: "Mas do que foi que você não gostou especificamente."
Eu respondi quase com vergonha: "Do topete mesmo..."
Ele ainda assim redarguiu: "Mas corte americano é assim!"
Então eu tentei falar a língua dele, não sei se acertei: "É que eu acho que o formato do meu rosto não combina muito bem com topete."

É claro que ele tirou o topete. Eu nunca sairia na rua com aquilo na cabeça.
Mas foram os R$ 30,00 mais mal dados de toda a minha vida.
Depois desse dia, nunca valorizei tanto a velha e simples barbearia aqui perto de casa.

Bruno Gomes.
02/01/2011

3 comentários:

Mariane Magno disse...

Nossa tem gente que insiste no erro ¬¬ ainda bem que você é educado de fosse outro tinha dado um murro nesse cabeleleiro. HUASHUAHSUHAS
Mas o que eu queria dizer era: QUERIA MUITO TER VISTO VOCÊ DE TOPETE.
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk'
ia ser uma experiência inesquecível :}

Ricardo Dib disse...

Devia ter fotografado antes de tirar o topete! kkkkkkk!

Anônimo disse...

Eu amaria te ver de topete, Pops!
Deverias ter tirado uma foto.