sábado, 25 de dezembro de 2010

A ESTÓRIA DAS TRUFAS

Curioso como esses períodos de férias, nos quais eu fico em casa sem maiores ocupações, me fazem recordar de coisas antigas e casos do passado.

Essa estória que contarei refere-se a uma namorada que eu tive.
Eu perguntei a ela se podia falar do acontecimento aqui e ela deixou...

Ela é uma boa menina, em todos os sentidos; calma, compreensiva, carinhosa.
Todavia, ela possuía uma forte característica (na verdade, eu acho que ainda possui) que nos fazia ter constantes conflitos: o desejo que ela tinha de me obrigar a fazer sempre o que ela queria.

Quando eu queria fazer o que ela queria que eu fizesse, tudo bem.
O problema é que quase tudo que ela queria que eu fizesse, eu não queria fazer.
E quando eu utilizava os meus melhores argumentos para fazê-la desistir, derrubando todos os seus sofismas, ela falava chorosa: "Mas é para o seu bem."

E lá ia eu, arrependido, fazer o que ela desejava.

Ora, uma das coisas que ela mais me forçava a fazer, com grande e quase insuportável insistência, era comer.
Ela me obrigava a comer o tempo todo, inclusive quando eu não tinha fome.
Quando eu perguntava o porquê dela querer que eu me alimentasse toda hora, ela falava: "É porque você é magrinho."

Bem, eu realmente era bem magro na época.
Ela justificava dizendo que, quando me abraçava, tinha a impressão de que estar abraçando um menino e não um adulto.
E isso, segundo ela, não a fazia sentir-se confortável, pelo fato de já ser mais velha que eu.

E então, toda vez que vinha aqui em casa, ela me trazia 3 trufas, porque, na cabeça dela, trufa era muito calórico e me faria engordar.

Mas eu odeio trufa!
E ela sabia disso.
Eu já tinha dito isso a ela mil vezes.

Mas isso não importava.
Eu tinha que fazer o que ela queria.
O que valia não era a minha opinião, e sim o fato de que trufa engordava, que ela queria que eu comesse e que isso "era para o meu bem."

No começo do namoro, quando a gente faz tudo para agradar, eu até comia.
Mas depois de vários meses, eu não aguentava mais.
Eu já estava tendo pesadelo com as trufas.

Assim sendo, não querendo constrangê-la, eu deliberei um plano: eu comeria 1 trufa na frente dela e jogaria 2 no lixo quando ela fosse embora.
Era um bom plano.

Claro que eu acabava não jogando fora, para não desperdiçar comida.
Eu as guardava na minha mochila.

Eu fazia assim: quando ela me dava as 3 trufas, eu comia 1 e guardava as outras 2, dizendo que as comeria à noite.
E ela falava triunfante e feliz: "Isso mesmo, comer antes de dormir engorda mais!"

O problema é que de 2 em 2 trufas que ela me trazia e eu guardava na mochila, eu já tinha umas 30 trufas e não sabia o que fazer com elas.
Ademais, eu corria o risco de, algum dia, ela ver aquele monte de trufas juntas e descobrir que eu estava enganando ela.

Me recordo que chegou a época da Páscoa e, voltando um dia da faculdade, à noite, eu tive uma fantástica idéia: eu daria as 30 trufas para os mendigos do bairro.
E assim o fiz.

Andando pelas ruas, no caminho de volta para casa, eu dava 2 trufas para cada um que encontrasse.
Muitos deles nunca haviam visto ou comido aquilo antes.
Quando eu as dava, eles me perguntavam: "O que é isso?"
Eu dizia que era trufa e eles adoraram!

Nos dias posteriores, sempre que eu passava, eles falavam:
"- Irmão, cadê as trufas? A gente nunca tinha comido aquilo! É gostoso! Quando puder traga mais!"

E dessa forma, eu fiquei famoso entre eles: o irmão das trufas.

Pronto, o plano era perfeito.
Toda vez que ela me trouxesse as 3 trufas, 1 era minha e as outras 2 dos mendigos.
Eu evitava comê-las e ainda fazia caridade.

O problema é que as coisas comigo sempre acabam escapando do controle: minha mãe ficou sabendo.
E como toda sogra parece que acaba gostando mais da nora do que do próprio filho, na primeira oportunidade, minha mãe a chamou e disse:
"- Olha só, eu tenho que te dizer uma coisa. Você está trazendo as trufas para Bruno, mas quem está comendo elas são os mendigos na rua."
"- Como assim???", ela perguntou surpresa.
"- É isso mesmo, eu vi ele fazendo isso", concluiu minha mãe.

Quem tem uma mãe dessa, não precisa de mais nada.

Como seria de esperar, ela me chamou para conversar revoltadíssima.

O diálogo foi o seguinte:
Ela: "- Que estória é essa que você está dando as trufas que eu te dou para os mendigos?"
Eu: "- Como assim?"
Ela: "- É isso mesmo. Eu fiquei sabendo."
Eu: "- ..."
Ela: "Fale logo!"
Eu: "- Mas quem te contou?"
Ela: "- Sua mãe."
Eu: "- Minha mãe??? Mas rapaz, que absurdo...!"
Ela: "- Isso é coisa que você faça? As trufas caras que eu compro pra você com tanto carinho."

Com essa frase, sem perceber, ela me deu brecha para argumentar e sair do aperto:
Eu: "- Ah, mas você não me dá as trufas porque gosta de mim. Você me dá pra eu engordar. É interesse."
Ela: "- É, bem eu estranhei o fato de você não estar engordando mesmo..."
Eu: "- Tá vendo???"
Ela: "- Mas é para o seu bem!"
Eu: "- Sempre isso de ser para o meu bem! Você sabe que eu não gosto de comer muito e que eu odeio trufa. Já te disse isso milhares de vezes!"
Ela: "- Mas trufa é calórico e engorda."
Eu: "- E quem te disse que eu quero engordar?"
Ela: "- Mas é para o seu bem!"
Eu: "- Afff..."

Ela: "- Eu já te disse o motivo."
Eu: "- Ok, então eu acho melhor você namorar um lutador de sumô."
Ela: "- Mas você está muito magrinho!"
Eu: "- Se você não gosta de magrinho, tem quem goste."

E o diálogo continuou por mais alguns minutos, sem chegarmos a nenhuma solução.

Eu não sou psicólogo, mas fiz uma análise desse fato e cheguei à seguinte conclusão.
Em verdade, ela tinha um conflito: um transtorno alimentar.
Ela queria comer, mas não comia com medo de engordar, porque havia sido gordinha na adolescência.
Dessa forma, ela fazia uma transferência psicológica para mim: como ela não podia comer, senão engordaria, mas eu podia comer, porque era magro, ela satisfazia toda a vontade dela de comer em mim, em um mecanismo de transferência.

Assim, eu a aconselhei a ir ao psicólogo falar para sobre isso, se abrir e desabafar:
"- Ir ao psicólogo? Você acha que eu sou maluca?", ela me perguntou.
"- Não, não acho. Mas vai acabar ficando se não for", conclui.

Ela foi até um psicólogo e ele chegou a mesma conclusão que eu havia chegado.
Eu não precisei ser um gênio para descobrir isso; foi apenas um pouco de conhecimento da alma humana.

Depois disso, eu fiquei até com pena dela, e passei a comer as 3 trufas que ela trazia.
Eu só acho que os meus amigos mendigos não gostaram nada da forma como as coisas acabaram...

Bruno Gomes
25/12/2010

4 comentários:

Mariane Magno disse...

(RISOS) nossa que engraçado não sei se é o fato de alguém dar trufas para os mendigos porque não gosta ou da sua mãe gostar tanto de você. HUASHUAHS..
Muito boa a história, mas Bruno é para o seu bem! veja talvez as trufas tenham tido efeito agora :}
(risos)

PapoBacana disse...

Olaa..obrigada por me seguir..adorei este post das trufas..rsrs muitos legal..engraçado rsrs
ja estou te seguindo..

diego disse...

me identifiquei muito com seu post kra...tbm sou magro, e era mais ainda, e sofri com namoradas e pessoas me incentivando a comer mais que eu aguentava...

Anônimo disse...

HAHAHAHA meu namorado é magérrimo também e eu sou muito preocupada com meu peso, mas eu nunca fui gorda, só tinha engordado uns 5kg.. agora perdi eles e controlo tudo que como, mas estou aqui comendo trufa com meu namorado, eu não obrigo ele a comer pq eu não como o.O, aliás até proibo ele de comer pq se não eu também quero xD