quinta-feira, 1 de julho de 2010

O HOMEM QUE TINHA MEDO DA MORTE

Havia um senhor de 75 anos que tinha um comportamento um tanto curioso e estranho.
Toda vez que alguém de sua convivência próxima e de idade semelhante a dele morria, ele era tomado por um grande temor pela morte que, segundo ele em sua mente, se aproximava inexorável para buscá-lo.

Reflexionava ele da seguinte forma...
Quando um filho morre antes dos pais ou quando os netos partem antes dos avós, nós somos tomados por um compreensível sentimento de "injustiça" e pesar.
Afinal de contas, no ciclo normal da natureza, os pais devem ir antes dos filhos e os avós antes dos netos.

Mas no seu caso em especial, quando morria um irmão de 78 anos ou um grande amigo de 72, ele era acometido de imenso receio, pois isso significava que o seu nome estava subindo na lista da Sra. Morte e que a possibilidade dele ser o próximo era inevitável.

Tão amiúde se tornara essa sua preocupação, inclusive compartilhada com os amigos, que ele já era conhecido como "o homem que tinha medo da morte", título desse texto.

Certo dia, após cumprir todos os seus afazeres diários, ele se aprontou para dormir.
E ao cair no sono ele sonhou com uma tia falecida já há muito tempo e da qual ele nem mais se lembrava.
Nesse sonho ela aparecia no seu quarto e o dizia: "Diga para a minha filha (prima dele) que, em relação à morte, você irá à frente dela", e desapareceu.

Ele acordou desesperado.
Nunca tinha tido um sonho parecido com aquele.
Em verdade, ele nem mesmo chegou a conviver com essa tia, pois a mesma havia morrido quando ele ainda era muito jovem.
A reconhecia apenas por fotos no álbum da família.

Como algo do tipo poderia ter acontecido?
Aquele sonho havia sido real ou era apenas um fruto da sua imaginação?

Dessa forma, totalmente envolvido pelo acontecimento insólito e até então inédito, ele não conseguiu mais dormir naquela noite, preocupado com a notícia que a tia havia trazido do outro mundo.

Ao amanhecer, veio-lhe a súbita lembrança de que deveria passar o recado para a sua prima, afinal esse fora o motivo da mãe dela ter vindo do Além ao seu encontro.

Mas como faria isso?
Como a sua prima receberia tal notícia: a de que, em relação à morte, ele iria à frente dela?

Pôs-se a meditar e, após longas reflexões, foi até a casa dela.

Lá chegando, após conversarem alegremente, ele tomou uma postura mais séria, fechou o semblante e disse para a prima:

"- Eu tenho uma notícia muito grave para te dar", iniciou.
"- Uma notícia grave?", perguntou a prima.
"- Sim, muito grave", disse.
"- Por favor, diga-me então! Que notícia é essa?"
, questionou curiosa.
"- Ontem à noite eu tive um sonho com a sua falecida mãe", revelou ele.
"- Com a mamãe? Mas que maravilha! Eu sempre quis sonhar com ela! Tenho tantas saudades! Mas o que isso tem de tão grave?", perguntou.
"- Na verdade o problema não é o sonho em si, mas a mensagem que ela veio trazer-me e pediu para passar para você", respondeu algo soturno.
"- Mas então me diga logo! Que notícia grave é essa que ela pediu para você me trazer?", interrogou ansiosa.
"- Bem... Infelizmente, a notícia que ela me trouxe é que, em relação à morte, eu irei a sua frente", disse tentando ser o mais objetivo possível.

"- Mas que horror! Como a mamãe pôde ter trazido uma notícia tão terrível? Eu não acredito nisso!", disse ela, assustada.
"- Pois é... Mas é a verdade", admitiu ele.
"- Mas não se preocupe com isso! Você está saudável, é um homem forte. Ainda tem muitos anos de vida pela frente! Ademais, eu tenho 80 anos, ou seja, sou cinco anos mais velha que você. O mais provável é que eu vá a sua frente", argumentou ela, tentando consolá-lo.
"- Como assim? Eu não estou nem um pouco preocupado com isso. Acho que você não entendeu bem a notícia", completou ele, surpreso.
"- Mas... Não é você que tem sempre medo de morrer e está constantemente envolvido em sismares sobre o dia da sua morte? A mamãe disse que você irá morrer antes de mim!"
"- Não, não", insistiu.
"- Como não? Foi você mesmo quem disse que o recado dela foi esse!", continuou, confusa
"- Exatamente. Mas entenda bem. A sua mãe disse que, em relação à morte, eu iria a sua frente", complementou ele.

"- Ok, tudo bem. Então me diga: como você interpreta isso?", finalizou algo irritada.
"- Da seguinte forma: em relação à morte eu irei realmente a sua frente. Pois estarei no seu enterro, a sua frente, carregando o seu caixão!"

Bruno Gomes.
01/07/2010

Baseado em uma estória do seminário "Conflitos Existenciais" pelo orador Divaldo Franco.

2 comentários:

Ricardo Dib disse...

Acho que quando eu passar dos 70, vou entrar nessa nóia também. rs rs!

Abraço.

divagando idéias disse...

Tudo é uma questão de ponto de vista... hauiaiuhuiahhahuahiuah
sacana ele... xD